segunda-feira, 3 de junho de 2019



No parque morno, um perfumista oculto
ordenha heliotrópios,
Deixa aberta a janela.

Minhas mãos sabem de cor o teu corpo,
e a alcova é morna.
Apaguemos a luz.

Não sentes na tua boca
um gosto de papoulas?

Passa o lenço de seda de tuas mãos
sobre minha fronte
e não me digas nada:
a febre está, baixinho, ao meu ouvido,
falando de ti.

Guimarães Rosa




Na tua pele toda a terra treme
alguém fala com Deus alguém flutua
há um corpo a navegar e um anjo ao leme.

Das tuas coxas pode ver-se a Lua
contigo o mar ondula e o vento geme
e há um espírito a nascer de seres tão nua…

Manuel Alegre





Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objetos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Obje
to contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti
até que a dor alegre recomece.

Maria Gabriela Llansol



quarta-feira, 22 de maio de 2019



E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo.
Obriga-me.

Hilda Hilst






Com a paixão faço
e armo
a construir-me no excesso

Apunhalo o coração
enveneno
o peito aberto

A paixão é meu
destino
meu final e meu começo

Morrer de amor
e de amar
é a morte que eu mereço

Maria Teresa Horta



domingo, 5 de maio de 2019



Sou voraz
não me apego
ao abrigo da alma
Sou o corpo
o incêndio
só o fogo
me acalma

Maria Teresa Horta


Fica dentro de mim, como se fosse
eterno o movimento do teu corpo,
e na carne rasgada ainda pudesse
a noite escura iluminar-te o rosto.
No teu suor é que adivinho o rastro
das palavras de amor que não disseste,
e no teu dorso nu escrevo o verso
em pura solidão acontecido.
Transformo-me nas coisas que tocaste,
crescem-me seios com que te alimente
o coração demente e mal fingido;
depois serei a forma que deixaste
gravada a lume com sabor a cio
na carícia de um gesto fugidio.

António Franco Alexandre
in Duende


sábado, 20 de abril de 2019




a língua sobre a pele o arrepio
os teus dedos nas escadas do meu corpo

as lâminas do amor o fogo a espuma
a transbordar de ti na tua fuga

a palavra mordida entre os lençóis
as cinzas de outro lume à cabeceira

da mesma esquina sempre o mesmo olhar:
nada do que era teu vou devolver.

Alice Vieira




Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo
Nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.

Eu quero apenas amar-te lentamente
Como se o tempo fosse nosso
Como se todo o tempo fosse pouco
Como se nem sequer houvesse tempo.

Soltar os teus seios.
Despir as tuas ancas.
Apunhalar de amor o teu ventre.

Joaquim Pessoa





quando te beijo
é só a forma de os meus lábios dizerem que sim
e de os teus lábios dizerem que não
que não houve tempo antes de nós.

Vasco Gato

terça-feira, 9 de abril de 2019



Não me peças palavras, nem baladas, nem expressões, nem alma.
Abre-me o seio, deixa cair as pálpebras pesadas,
e entre os seios me apertes sem receio.
Na tua boca sob a minha, ao meio, nossas línguas se busquem, desvairadas.
E que os meus flancos nus vibrem
no enleio das tuas pernas ágeis e delgadas.
E em duas bocas uma língua... — unidos,
nós trocaremos beijos e gemidos, sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... — abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada.
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!

José Régio



segunda-feira, 18 de março de 2019




Ouço-te ciciar amo-te pela primeira vez,
e na ténue luminosidade que se recolhe ao horizonte acaba o corpo.

Recolho o mel, guardo a alegria, e digo baixinho:
Apaga as estrelas,
vem dormir comigo no esplendor da noite
do mundo que nos foge.

Al Berto



Quando me deito contigo
respiro apenas pela pele.

E digo-te tudo
sem uma única palavra.

Joaquim Pessoa








Não levaste a minha carne
mesmo que se tenha misturado com tua.
E não levaste o meu sangue
mesmo que se tenha embebido do teu.
O prazer não se leva e mal se recorda,
e nem fica no rosto como tatuagem.
Então...depois de tudo o que ficou?

- Talvez as palavras que ao ouvido te dizia.
Não as saudades da carne, mas da poesia!

João Morgado





quarta-feira, 13 de março de 2019



No silencio que guardo
quando partes
que escondes sob os
dedos

que se prende
que me deixa no corpo
este calor
da falta do teu corpo como sempre

Maria Tereza Horta

quarta-feira, 7 de novembro de 2018




Inventa uma parede
onde possas encostar-me o corpo
pressionado pelo teu.
Uma parede de textura suave.
Uma parede única,
onde nos encontremos.
Inventa uma parede para o amor.

Silvia Chueire





Diz-me que me amas, diz só uma vez.
Mesmo que seja mentira, diz-me.
Só para eu guardar o som da tua voz a dizer essa palavra.

Inês Pedrosa





Entraste na casa do meu corpo,
desarrumaste as salas todas
e já não sei quem sou, onde estou.

Casimiro de Brito




Assim me perguntaste,
assim te respondi:
tudo é paixão.

Como não lamber
da tua pele, o mel
que o desejo fabrica?

E como a minha boca
não recolher o néctar
da tua boca?

Ou como não sorver
das tuas mãos o pólen
da ternura?

E se, em vez de paixão,
for sexo apenas,
ou loucura?

Pode até não ser amor.
Mas, seja o que for,
não é pior.

Joaquim Pessoa
in “Ano Comum”

Só de amor




Tu acendes a chama
do meu corpo
pões a lenha ao fundo
em sítio seco

Procuras no desejo
o ponto certo
e convocas aí
o lume certo

Se a madeira demora
a ganhar fogo
tomas-me as pernas
e deitas lento o vinho

Riscas os fósforos todos
e depois
é mais um incêndio
que adivinho

Maria Tereza Horta



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