quarta-feira, 7 de novembro de 2018




Inventa uma parede
onde possas encostar-me o corpo
pressionado pelo teu.
Uma parede de textura suave.
Uma parede única,
onde nos encontremos.
Inventa uma parede para o amor.

Silvia Chueire





Diz-me que me amas, diz só uma vez.
Mesmo que seja mentira, diz-me.
Só para eu guardar o som da tua voz a dizer essa palavra.

Inês Pedrosa





Entraste na casa do meu corpo,
desarrumaste as salas todas
e já não sei quem sou, onde estou.

Casimiro de Brito




Assim me perguntaste,
assim te respondi:
tudo é paixão.

Como não lamber
da tua pele, o mel
que o desejo fabrica?

E como a minha boca
não recolher o néctar
da tua boca?

Ou como não sorver
das tuas mãos o pólen
da ternura?

E se, em vez de paixão,
for sexo apenas,
ou loucura?

Pode até não ser amor.
Mas, seja o que for,
não é pior.

Joaquim Pessoa
in “Ano Comum”

Só de amor




Tu acendes a chama
do meu corpo
pões a lenha ao fundo
em sítio seco

Procuras no desejo
o ponto certo
e convocas aí
o lume certo

Se a madeira demora
a ganhar fogo
tomas-me as pernas
e deitas lento o vinho

Riscas os fósforos todos
e depois
é mais um incêndio
que adivinho

Maria Tereza Horta






Na tua pele toda a terra treme
alguém fala com Deus alguém flutua
há um corpo a navegar e um anjo ao leme.

Das tuas coxas pode ver-se a Lua
contigo o mar ondula e o vento geme
e há um espírito a nascer de seres tão nua…

Manuel Alegre



Longas manhãs te esperei tremendo no patamar dos olhos.

Fernando Assis Pacheco



Ouço-te ciciar amo-te pela primeira vez,
e na ténue luminosidade que se recolhe ao horizonte acaba o corpo.

Recolho o mel, guardo a alegria, e digo baixinho:
Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge.

Al Berto



Quando me deito contigo
respiro apenas pela pele.

E digo-te tudo
sem uma única palavra.

Joaquim Pessoa




Que teu corpo se faça mar
num rosário de ondas, uma a uma
para que nelas possa eu afagar
os flancos úmidos da espuma.

Que roles na praia em perfeito desalinho
deixando a marca dos seios na areia
como itinerário e caminho
por onde meu desejo de ti vagueia.

Miguel Afonso Andersen
em "Circum-Navegações

Que me venha esse homem



Que me venha esse homem
Depois de alguma chuva
Que me prenda de tarde
Em sua teia de veludo
Que me fira com os olhos
E me penetre em tudo

Que me venha esse homem
De músculos exatos
Com um desejo agreste
Com um cheiro de mato
Que me prenda de noite
Em sua rede de braços

Que me venha com força
Com gosto de desbravar
Que me faça de mata
Pra percorrer devagar
Que me faça de rio
Pra se deixar naufragar

Que me salve esse homem
Com sua febre de fogo
Que me prenda no espaço
De seu passo mais louco
Que me venha esse homem

Que me arranque do sono
Que me venha esse homem
Que me machuque um pouco.

Bruna Lombardi





Ter-te longe
e desejar-te aqui,
onde o frêmito do corpo acontece.
Aqui, lugar onde
o vício dos olhos e das mãos me inquieta.

Ah, ter-te perto
suster a respiração,
cerrar os olhos
e deixar que tudo comece
e acabe em ti.

Ensaiar o voo da águia
e suavemente planar sobre a superfície
sinuosa do teu corpo perfeito
no asa-delta da paixão.

Ter-te perto
sentir o perfume da tua presença
pelo calor do corpo,
pela claridade dos olhos
e pensar
que o sol e a alegria
de cada manhã
nascem exatamente em ti.

Miguel Afonso Andersen
em "Circum-Navegações" (Raiz Perturbada) 


Volúpia do vento




...

[excerto]

O vento, sob o céu de brumas carregado,
passa, ora langoroso, ora forte, medonho!
E tanto penso em ti, ó meu ausente amado!
que te sinto no vento e a ele, feliz me exponho

Com carícias brutais e com carícias mansas,
cuido que tu me vens, julgo-me toda tua...
Sou árvore a oscilar, meus cabelos são tranças...
E não podes saber do meu gozo violento,
quando me fico, assim, neste ermo, toda nua,
completamente exposta à volúpia do vento!

Gilka Machado
em "Volúpia do Vento"

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Volúpia



No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frêmito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...

Florbela Espanca






Vem morrer vivendo nos meus braços
Preenche com meu colo teus espaços
Do avesso do meu não, faz o teu sim
Vem poetar de amor dentro de mim

Grita o aroma rubro do desejo em flor
Perde teu gosto fulvo desta pele em cor
Pensa nas sombras de gemidos vãos
E faze de meus lábios tuas mãos

Sente meu toque no teu toque exangue
Vive meu gozo em teu próprio sangue
Dá-me teu beijo para que eu afague

Dá-me teus olhos para que eu me afogue
Teu pensamento onde minh’alma cabe
E que meu corpo no teu corpo acabe

Lilia Chaves




Amor

Teus olhos se espreguiçam no meu peito
e dormem o riso morno das abelhas
tontas de mel rolando
amor - amado...
Teus lábios escrevem poemas sós, secretos,
nos meus lábios lacrados desta sede
que só tu sabes a paixão imensa...
Tuas mãos debulham rimas
em todo o meu dorso dourado
da tua presença
à sombra da tarde que escoa...
Tentar ficar longe de ti é fiasco, é legenda.
Fica rente a ti blasfêmia que Deus abençoa.

Adalcinda Camarão




Saudade



Segue-me noite e dia o teu desejo!...
Oiço a tua voz rúbida e cantante
Suplicar-me a carícia do meu beijo,
numa teima exigente e perturbante!

E o meu corpo vencido, dominado,
vai tombar doloroso, inconsciente,
sobre a lembrança morna do passado
- e fica-se a sonhar... perdidamente!

Judith Teixeira




terça-feira, 31 de outubro de 2017

Um segredo



Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

Maria Teresa Horta


Desperta-me de noite



Tira-me a blusa, amor,
que eu tiro-te a camisa,
percorro-te com a língua
o ventre desvendado

e tu vais-me tomando,
tocando, mais acima,
entreabrindo as pernas puxando-me
para baixo

E nada mais sossega ou se aquieta,
afirmas,
e eu conheço a chama no corpo
desatada

essa onda rasgada
que fulmina
nos envolve - convulsa
e tresloucada

Depois, nenhum dos dois
já sabe onde termina
onde se acoita o grito devorado

Pelo prazer que rompe
e que domina
o corpo, meu amor,
do nosso desacato

Maria Teresa Horta


As tuas mãos queimam-me a fala



E tu sussurras:
- Não, não afastes a boca da minha orelha.
derrama dentro dela aquilo que não consegues dizer em voz alta.
E eu digo:
- As tuas mãos queimam-me a fala.
Tu sorris, dizes:
- Vem , sem medo, pela aridez do meu corpo.
No fundo de mim existe um poço onde guardo a tua imagem. É tempo de ta devolver. É tempo de te reconheceres nela.


Al Berto


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