domingo, 27 de novembro de 2016



Lençóis alvos e desfeitos,
Peles bordadas por mãos e anseios,
Éden florido no profano desejo,
Caminhos desbravados em doce enleio,
Palavras caladas em brando silêncio,
Sinfonia de corpos
gementes, sedentos,
O fruto que cai ao último suspiro,
O grito que ecoa
para além do momento.

Cristina Correia


domingo, 26 de junho de 2016

Fogo posto



(...)

à entrada da noite
como se a luz doesse
entre o desejo
e o espasmo lentíssimo relâmpago
a mão.

Eugénio de Andrade


sexta-feira, 24 de junho de 2016



Não há memória mais terrível do que a da pele;
a cabeça pensa que esquece, o coração sente que passou,
e a pele arde, invulnerável ao tempo.


Inês Pedrosa

terça-feira, 14 de junho de 2016



Sob o chuveiro amar, sabão e beijos,
ou na banheira amar, de água vestidos,
amor escorregante, foge, prende-se,
torna a fugir, água nos olhos, bocas,
dança, navegação, mergulho, chuva,
essa espuma nos ventres, a brancura
triangular do sexo — é água, esperma,
é amor se esvaindo, ou nos tornamos fonte?

Carlos Drummond de Andrade


segunda-feira, 13 de junho de 2016




Fico vulnerável quando ele
me beija o pescoço é como se o meu corpo
entrasse em erupção de desejos.

Amaury Caíque

quinta-feira, 2 de junho de 2016

As mãos



Essa região desconhecida que nos aproxima e afasta ao mesmo tempo.

Perco-me na penumbra do que queria ter gritado e não pude.

O desejo resgata-nos do abismo,
mas também se ergue o que no admite consolo.

Palavras como pássaros na solidão do ar.


Lucía Estrada


quarta-feira, 1 de junho de 2016




Na tua pele toda a terra treme
alguém fala com Deus alguém flutua
há um corpo a navegar e um anjo ao leme.

Das tuas coxas pode ver-se a Lua
contigo o mar ondula e o vento geme
e há um espírito a nascer de seres tão nua…

Manuel Alegre


domingo, 22 de maio de 2016

Noturno



Meu pensamento em febre
é uma lâmpada acesa
a incendiar a noite.

Meus desejos irrequietos,
à hora em que não há socorro,

dançam livres como libélulas
em redor do fogo.


Henriqueta Lisboa


quinta-feira, 19 de maio de 2016

Os Amantes




As palavras amendoam o sorriso,
amado, amada
conversam e conversam,
deitados lado a lado

depois, e devagar,
maciamente
passam à pele absoluta do silêncio.

Isabel Cristina Pires



quarta-feira, 18 de maio de 2016

Poema Quinquagésimo Sétimo



Escrevo-me como se fosse
um poema, para dizer quanto te amo.
E levo, num beijo, essas palavras até à tua boca,
ofereço-tas, ansiosas e úmidas, com a mais doce
impaciência. Sorves na tua boca a minha língua
que canta todo o amor, que dá recados vibrantes
à tua carne, e faz do tamanho da noite as tuas pupilas.
Pergunto-me porque cantas e porque canto
quando a minha boca e a tua boca são uma boca
apenas, um corpo apenas, um longo poema
com uma só palavra.

Joaquim Pessoa
em "Guardar o Fogo"


terça-feira, 10 de maio de 2016

.

.


Quimica boa é quando mesmo de longe,
você escuta a vontade gemer.


Sylvia Pereira

quinta-feira, 5 de maio de 2016



O momento das carícias voltou a entrar no quarto,
pediu desculpa por ter-se demorado tanto lá fora,
Não encontrava o caminho, justificou-se, e,
de repente, como aos momentos algumas vezes acontece,
tornou-se eterno.

José Saramago



quarta-feira, 4 de maio de 2016

Sob o chuveiro




Sob o chuveiro amar, sabão e beijos,
ou na banheira amar, de água vestidos,
amor escorregante, foge, prende-se,
torna a fugir, água nos olhos, bocas,
dança, navegação, mergulho, chuva,
essa espuma nos ventres, a brancura
triangular do sexo — é água, esperma,
é amor se esvaindo, ou nos tornamos fonte?

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 3 de maio de 2016

Ida e volta



Quando nos encaminhamos para o amor
todos vamos ardendo.
Levamos amapolas nos lábios
e uma centelha de fogo no olhar.
Sentimos que o sangue
nos golpeia as têmporas, as pelves, os pulsos.
Damos e recebemos rosas vermelhas
e vermelho é o espelho do quarto na penumbra.

Quando voltamos do amor, vagarosos,
desprezados, culpados
ou simplesmente estupefatos,
regressamos muito pálidos, muito frios.
Com olhos e cabelos envelhecidos e o número
de leucócitos nas alturas,
somos um esqueleto e sua derrota.

Porém continuamos indo.

Amalia Bautista

terça-feira, 12 de maio de 2015

Lembro



Lembro-me de ser sereia de olhos líquidos,
olhos aquário com peixes nadando devagar.
Lembro o canto suave
[ chamando o luar grávido de agosto ]
e de dançar na praia das tuas mãos macias.
Lembro o toque, o deslizar das mãos
no corpo vestido de algas e delícias.
Lembro as primícias de mil e uma noites
de astros acesos a transbordar de apelos.
No vagar dos sonhos serei sereia indefinidamente.


Maripa


domingo, 16 de março de 2014

Lembro



Lembro-me de ser sereia de olhos líquidos,
olhos aquário com peixes nadando devagar.
Lembro o canto suave
(chamando o luar grávido de agosto)
e de dançar na praia das tuas mãos macias.
Lembro o toque, o deslizar das mãos
no corpo vestido de algas e delícias.
Lembro as primícias de mil e uma noites
de astros acesos a transbordar de apelos.
No vagar dos sonhos serei sereia indefinidamente.

Maripa

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Apelo



Atravessa os campos da noite
e vem.

A minha pele
ainda cálida de sol
te será margem.

Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.

Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.

Atravessa os campos da noite
e vem.

Luísa Dacosta


segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Toma-me



Toma-me.
A tua boca de linho sobre a minha boca austera.
Toma-me agora, antes
Antes que a carnadura se esfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.
Tempo do corpo este tempo. Da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.
Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa
De púrpura. De prata. De delicadeza.

Hilda Hilst

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Perfeição



Procuro, onde repassar o corpo.
Deixar todas as marcas do silêncio e,
Sorver toda a alegria da palavra incendiada

Penetrar, onde o ardor é mais rumoroso,
Sendo, a corola do ventre, a salvação dos lábios.

E o caos da carne, tão perto está, da perfeição plena,
Quando, pelos espelhos, chega o leite derramado dos seios.

Nada mais sublime e próximo dos deuses, que,
Dois corpos juntos, olhando-se no mais íntimo,
De toda a luz derramada no êxtase.

Joaquim Monteiro


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Elogio do pecado




Ela é uma mulher que goza
celestial sublime
isso a torna perigosa
e você não pode nada contra o crime
dela ser uma mulher que goza

você pode persegui-la, ameaçá-la
tachá-la, matá-la se quiser
retalhar seu corpo, deixá-lo exposto
pra servir de exemplo.

É inútil. Ela agora pode resistir
ao mais feroz dos tempos
à ira, ao pior julgamento
repara, ela renasce e brota
nova rosa

Atravessou a história
foi queimada viva, acusada
desceu ao fundo dos infernos
e já não teme nada
retorna inteira, maior, mais larga
absolutamente poderosa.

Bruna Lombardi


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