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sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

Os seus lábios

 



Os seus lábios encontraram os lábios dele e ai se ficaram, quentes,
como quem regressa casa depois de emigrado cem anos e acende a lareira;
um fogo doce onde ardem todas as agruras esquecidas do caminho
e se festeja a júbilo da chegada.
Foi o beijo mais doce de todos os beijos.

João Morgado
Em: Diário dos Imperfeitos




sexta-feira, 11 de março de 2022

Despi-a vagarosamente

 


Despi-a vagarosamente com os olhos,
com as mãos,
com os lábios.
O sexo tinha a elevação de uma eira
cheia de trigo queimado e um sendeiro cor de romã.
Entrei por ela como um arado esgarçando a terra úmida
e senti-lhe a pele por dentro, suave,
como um forro de cetim no vestido da sua nudez.

João Morgado

 

 



sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Depois de ser amada

 


Depois de ser amada no corpo,
a mulher é como a terra despenteada nas margens do rio,
onde os animais já mataram a sua sede e se recolhem.
 
Como o meu sexo que se remete ao sossego na sombra do meu corpo,
a lamber o perfume daquele rio interior em que bebeu.


João Morgado



terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Neste quarto pequeno

 


Neste quarto pequeno para um amor sem fim
É que dispo o teu corpo
Para o vestir de mim.

É que rasgo o olhar no bico dos teus seios
É que dispo meu corpo
De dores e receios.

Neste quarto pequeno para um amor louco
É que dispo teu corpo
Pouquinho a pouco.

É que encho teu ventre de amor em gume
É que dispo meu corpo
Chispando teu lume.

Neste quarto pequeno para um amor profundo
É que nos despimos às cegas
Para não ver o mundo.

É que de mãos trêmulas e rouca voz
Nos despimos dos outros
E nos vestimos de nós.

João Morgado

 

 

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Condenado

 

 

Amarrotamos o pano-cru
que reveste o nosso leito
e deixo que o meu peito nu
vista a nudez do teu peito.
E fica a minha pele
colada na tua pele,
em bagas de lume, a transpirar,
até sentir, sem queixume, o teu corpo
apaixonar-se pelo meu corpo,
devagar, bem devagar…
E sinto o meu corpo tremer
ao sentir-te estremecer por dentro
e mil aves abrem asas ao vento
no sereno reflexo de um amanhecer.
E a tua pele…
E a minha pele…
A nossa pele…
Embalo em ti levado pelas marés
descobrindo quem és por dentro
inebriado num arrepio lento
que me percorre de lés a lés.
Queria deter este instante,
deixar cada segundo em suspenso
como o mundo que lá fora nos rodeia,
e ficar exilado em ti, condenado,
despudoradamente nu e apaixonado,
tendo o teu corpo por cadeia.

João Morgado




sábado, 28 de dezembro de 2019

Felicidade

 

Felicidade
é abrir-te devagar como uma porta
rangendo murmúrios
para o meu corpo entrar.

E depois, depois voltar a fechá-la atrás de mim
e caminhar em ti em ritmos certos
para que os meus passos se confundam com o
bater do teu coração.

E depois, depois semear em ti trigo novo
e soltar papoulas nuas da minha boca
para que se misturem com o teu sangue.

E depois,
depois perder-me nesse sonho sem regresso
só com a luz dos teus olhos
a levarem notícias do mundo.

João Morgado

in Rio de Doze Águas, Doze Poetas





terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Os corpos das mulheres também sonham

 

...
Os corpos das mulheres também sonham;
sonham com outros corpos, e suspiram, transpiram, dão de si.
Por vezes, no estremecer do sangue,
as mulheres que se deitam
não se reconhecem nas mulheres que acordam.

João Morgado
In: Diário dos Imperfeitos



segunda-feira, 18 de março de 2019




Não levaste a minha carne
mesmo que se tenha misturado com tua.
E não levaste o meu sangue
mesmo que se tenha embebido do teu.
O prazer não se leva e mal se recorda,
e nem fica no rosto como tatuagem.
Então...depois de tudo o que ficou?

- Talvez as palavras que ao ouvido te dizia.
Não as saudades da carne, mas da poesia!

João Morgado





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