Os seus lábios encontraram os lábios dele e ai se ficaram, quentes,
um fogo doce onde ardem todas as agruras esquecidas do caminho
e se festeja a júbilo da chegada.
Foi o beijo mais doce de todos os beijos.
João Morgado
Em: Diário dos Imperfeitos
Despi-a vagarosamente com os olhos,
com as mãos,
com os lábios.
O sexo tinha a elevação de uma eira
cheia de trigo queimado e um sendeiro cor de romã.
Entrei por ela como um arado esgarçando a terra úmida
e senti-lhe a pele por dentro, suave,
como um forro de cetim no vestido da sua nudez.
João Morgado
Neste quarto pequeno para um amor sem fim
É que dispo o teu corpo
Para o vestir de mim.
É que rasgo o olhar no bico dos teus seios
É que dispo meu corpo
De dores e receios.
Neste quarto pequeno para um amor louco
É que dispo teu corpo
Pouquinho a pouco.
É que encho teu ventre de amor em gume
É que dispo meu corpo
Chispando teu lume.
Neste quarto pequeno para um amor profundo
É que nos despimos às cegas
Para não ver o mundo.
É que de mãos trêmulas e rouca voz
Nos despimos dos outros
E nos vestimos de nós.
João Morgado
Amarrotamos o pano-cru
que reveste o nosso leito
e deixo que o meu peito nu
vista a nudez do teu peito.
E fica a minha pele
colada na tua pele,
em bagas de lume, a transpirar,
até sentir, sem queixume, o teu corpo
apaixonar-se pelo meu corpo,
devagar, bem devagar…
E sinto o meu corpo tremer
ao sentir-te estremecer por dentro
e mil aves abrem asas ao vento
no sereno reflexo de um amanhecer.
E a tua pele…
E a minha pele…
A nossa pele…
Embalo em ti levado pelas marés
descobrindo quem és por dentro
inebriado num arrepio lento
que me percorre de lés a lés.
Queria deter este instante,
deixar cada segundo em suspenso
como o mundo que lá fora nos rodeia,
e ficar exilado em ti, condenado,
despudoradamente nu e apaixonado,
tendo o teu corpo por cadeia.
João Morgado