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sábado, 19 de outubro de 2024

A demora

 




O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.


Mia Couto
in Idades Cidades Divindades





quinta-feira, 5 de março de 2020

Nessa noite



Nessa noite se solveram, mãos de oleiro, salvando o outro de ter peso.
Nessa noite o corpo de um foi o lençol do outro.
E ambos foram pássaros porque o tempo deles foi antes de haver terra.
E quando ela gritou de prazer o mundo ficou cego:
um moinho de braços se desfez ao vento.
E mais nenhum destino havia.
 
Mia Couto



 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Ternura vadia

 
 
Traz de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono.

Mia Couto 



 






terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Eu era tua poesia


 

És parecida com a Terra. Essa é a tua beleza.
Era assim que dizias.

E quando nos beijávamos e eu perdia respiração e,
entre suspiros, perguntava: em que dia nasceste?

E me respondias, voz trêmula:
estou nascendo agora.

E a tua mão ascendia
por entre o vão das minhas pernas
e eu voltava a perguntar: onde nasceste?

E tu, quase sem voz, respondias:
estou nascendo em ti, meu amor.

Era assim que dizias.

Tu eras um poeta
Eu era a tua poesia.

Mia Couto




 

O amor não tem depois

 

Não quero o primeiro beijo:
basta-me
o instante antes do beijo.
Quero-me
corpo ante o abismo,
terra no rasgão do sismo.
O lábio ardendo
entre tremor e temor,
o escurecer da luz
no desaguar dos corpos:
o amor
não tem depois.
Quero o vulcão
que na terra não toca:
o beijo antes de ser boca.

Mia Couto

in "Tradutor de chuvas"





terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Há mulheres


 

Há mulheres que querem que o seu homem seja o Sol.
O meu quero-o nuvem.
Há mulheres que falam na voz do seu homem.
O meu que seja calado e eu, nele, guarde meus silêncios.
No resto, quero que tenha medo e me deixe ser mulher.
Que ele seja homem em breves doses.
Que exista em mares, no ciclo das águas e dos ventos.
E, que de vez em quando, seja mulher tanto quanto eu.
As suas mãos as quero firmes quando me despir.
Mas ainda mais quero que ele me saiba vestir.
Como se eu mesma me vestisse e ele fosse a mão da minha vaidade.

Mia Couto


 

Traz de novo, meu amor


 

traz
de novo, meu amor,
a transparência da água.
dá ocupação à minha ternura vadia.
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito,
e espanta, na gruta funda de mim,
os animais que atormentam o meu sono.

Mia Couto


 

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Eu era a tua poesia





(...)
E quando nos beijávamos e eu perdia respiração e,
entre suspiros, perguntava: em que dia nasceste?
E me respondias, voz trêmula:
estou nascendo agora.
E a tua mão ascendia
por entre o vão das minhas pernas
e eu voltava a perguntar: onde nasceste?
E tu, quase sem voz, respondias:
estou nascendo em ti, meu amor.
Era assim que dizias.
Tu eras um poeta
Eu era a tua poesia.

Mia Couto






sábado, 2 de julho de 2011



Tu me bebes
e eu me converto
na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda
mais despida.

Pudesse eu ser tu
e em tua saudade ser
a minha própria espera
Mas eu deito-me
no teu leito quando apenas
queria dormir em ti,
E sonho-te quando
ansiava ser
um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor:
simples perfume, lembrança
de pétala sem chão
onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há
depois do mar.

Mia Couto


quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Eu era a tua poesia



- És parecida com a Terra. Essa é a tua beleza.
Era assim que dizias.

E quando nos beijávamos e eu perdia respiração e,
entre suspiros, perguntava: em que dia nasceste?

E me respondias, voz trémula:
estou nascendo agora.

E a tua mão ascendia
por entre o vão das minhas pernas
e eu voltava a perguntar: onde naceste?

E tu, quase sem voz, respondias:
estou nascendo em ti, meu amor.

Era assim que dizias.

... tu eras um poeta.
Eu era a tua poesia.

E quando me escrevias,
era tão belo o que me contavas
que me despia para ler as tuas cartas.
Só nua eu te podia ler.
Porque te recebia não em meus olhos,
mas com todo o meu corpo,
linha por linha, poro por poro.

Mia Couto



domingo, 26 de setembro de 2010

Diz o meu nome


Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimasse os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No úmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

Mia Couto


sábado, 28 de agosto de 2010

Sede

.
0063 - picture for me
.
...

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
e em tua saudade ser a minha própria espera

Mas eu deito-me no teu leito
quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

Mia Couto

.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Deito-me no teu leito

.
.
Mas eu deito-me no teu leito
Quando apenas queria dormir em ti
E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu

Mia Couto

.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Diz o meu nome

.
.
Diz o meu nome
Pronuncia-o
Como se as sílabas te queimassem os lábios
Sopra-o com suavidade
Para que o escuro apeteça
Para que se desatem os teus cabelos
Para que aconteça
Porque eu cresço para ti
Porque a minha mão infatigável
Procura o interior e o avesso
Da aparência
Porque o tempo em que vivo
Morre de ser ontem
E é urgente inventar
Outra maneira de navegar
Outro rumo outro pulsar
Para dar esperança aos portos
Que aguardam pensativos
No úmido centro da noite
Diz o meu nome
Como se eu te fosse estranho
Como se fosse intruso
Para que eu mesmo me desconheça
E me sobressalte
Quando suavemente
Pronunciares o meu nome

Mia Couto

.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Ternura

.
.
Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono

Mia Couto

.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Noturnamente

.
.
Noturnamente te construo
para que sejas palavra do meu corpo

Peito que em mim respira
olhar em que me despojo
na rouquidão da tua carne
me inicio
me anuncio
e me denuncio

Sabes agora para o que venho
e por isso me desconheces

Mia Couto

.

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