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quinta-feira, 15 de maio de 2025

Deixa-me tatear teu hálito

 



Deixa-me tatear teu hálito
obscuro que estou
de todos os sentidos.

Deixa-me (ao menos) concluir
que essa ilusão de formas
é apenas minha inconclusa
maneira de ocultar-te.

Deixa-me (em sigilo)
beirar a secura do teu corpo
— o abismo de tocar-te.

Hilda Hilst



quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Esculpida alvorada

 


Tua pretensa caça
Na cara de granito.

Não é a mim que persegues
Nem és tu aquele que persigo.

Os amantes se entregam
Àquele corpo cruel mas perseguido
Armadura de garra e de delícias
Corpo listrado de mel.

Hilda Hilst



quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

No meio dia te penso

 


No meio-dia te penso
Íntima te pretendo.
Incendiada de mim
Contigo morrendo
Te sei lustro marfim e sopro.
E te aspiro, te cubro de sussurros
Me colo extensa sobre tua cabeça
Morte, te tomo.
E num segundo
Ouvindo novamente os sons da vida
Nomes, latidos, passos
Morte, te esqueço.
E intensa me retorno sob o sol.
 

Hilda Hilst 

 

 

 

segunda-feira, 9 de março de 2020

No meio-dia te penso


 

Côncovas de ter
Longas de desejo
Frescas de abandono
Consumidas de espanto
Inquietas de tocar e não prender.

Sophia de Mello Breyner Andresen 







quarta-feira, 22 de maio de 2019



E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo.
Obriga-me.

Hilda Hilst



segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Toma-me



Toma-me.
A tua boca de linho sobre a minha boca austera.
Toma-me agora, antes
Antes que a carnadura se esfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.
Tempo do corpo este tempo. Da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.
Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa
De púrpura. De prata. De delicadeza.

Hilda Hilst

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O amor vai além

.
.
Se não vos vejo
Vos sinto por toda parte...
Não são os olhos que vêem
Nem o sentido que sente.
O amor é que vai além
E em tudo vos faz presente.
.
Hilda Hilst

.

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