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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Arte-final




Não basta um grande amor
            para fazer poemas.
E o amor dos artistas, não se enganem,
não é mais belo
            que o amor da gente.

O grande amante é aquele que silente
se aplica a escrever com o corpo
o que seu corpo deseja e sente.

Uma coisa é a letra,
e outra o ato,

            – quem toma uma por outra
               confunde e mente.

Affonso Romano de Sant'Anna


terça-feira, 1 de novembro de 2011

Mistério



O mistério começa do joelho para cima.
O mistério começa do umbigo para baixo
e nunca termina.

Affonso Romano de Sant'Anna


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

É tão natural que te possua



É tão natural
que eu te possua
é tão natural que tu me tenhas,

que eu não me compreendo
um tempo houvesse
em que eu não te possuísse
ou possa haver um outro
em que eu não te tomaria.
Venhas como venhas,
é tão natural que a vida
em nossos corpos se conflua,

que eu já não me consinto
que de mim tu te abstenhas
ou que meu corpo te recuse
venhas quando venhas.

E de ser tão natural
que eu me extasie
ao contemplar-te,

e de ser tão natural
que eu te possua,
em mim já não há como extasiar-me
tanto a minha forma
se integrou na forma tua.
Affonso Romano de Sant'Anna


segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Amor de ostra



Nunca soube como as ostras amam.
Sei que elas têm um jeito suave de estremecer
diante da vida e da morte.
Tens um jeito de acomodar teu corpo ao meu
como na concha.
Eu não sabia como as ostras amam
até que duas pérolas brotaram de teus olhos
no mar da cama.

Affonso Romano de Sant'Anna


quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Te darei flores



Te darei flores.
Sempre planejei fazer isto.
Tão simples: de manhã acordar displicente
e começar a colher flores sob a cama.
Ir tirando buquês de rosas, margaridas, vasos de íris,
orquídeas que estão desabrochando e, uma a uma,
de flores ir te cumulando.
E amanhecendo dirás:
o amado hoje está mel puro,
seu amor aflorou e está me perfumando.

Affonso Romano de Sant'Anna


domingo, 17 de outubro de 2010

O amor e o outro



Não amo
melhor
nem pior
do que ninguém.

Do meu jeito amo
Ora esquisito, ora fogoso,
às vezes aflito
ou ensandecido de gozo.
Já amei
até com nojo.

Coisas fabulosas
acontecem-me no leito. Nem sempre
de mim dependem, confesso.
O corpo do outro
é que é sempre surpreendente.

Affonso Romano de Sant’Anna


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Deixa que eu te ame em silêncio

.
.
Deixa que eu te ame em silêncio.
Não pergunte, não se explique,
deixe que nossas línguas se toquem,
e as bocas e a pele falem seus líquidos desejos.
Deixa que eu te ame sem palavras
a não ser aquelas que na lembrança ficarão pulsando para sempre
como se amor e vida fossem um discurso de impronunciáveis emoções.

Affonso Romano de Sant' Anna

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domingo, 20 de dezembro de 2009

Amor e Medo

.
.
Estou te amando e não percebo,
porque, certo, tenho medo.
Estou te amando, sim, concedo,
mas te amando tanto que nem a mim
mesmo revelo este segredo.

Affonso Romano de Sant'Anna

.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Exílio

. .
O que fazer entre um orgasmo e outro, quando se abre um intervalo
sem teu corpo?
.
Onde estou, quando não estou
no teu gozo incluído?
Sou todo exílio?
. Que imperfeita forma de ser é essa
quando de ti sou apartado?
. Que neutra forma toco
quando não toco teus seios, coxas
e não recolho o sopro da vida de tua boca?
. O que fazer entre um poema e outro
olhando a cama, a folha fria?...
 
. Affonso Romano de Sant'Anna .

sábado, 15 de agosto de 2009

Quando te amei sozinho

.
.
As vezes em que eu mais te amei
tu o não soubeste
e nunca o saberias.
.
Sozinho a sós contigo
em mim mesmo eu te criava,
em mim te possuía
.
De onde vinhas nessas horas
em que inteira eu te envolvia,
nem eu mesmo o sei
e nunca o saberias
.
Contudo, em paz
eu recebia o carinho,
compungindo o recebia,
tranqüilo em meu silêncio
e tão tranqüilo e tão sozinho
que calmamente eu consentia:
- que ainda que muito me tardasse
mais ainda, um outro tanto, eu sempre esperaria.
.
Affonso Romano de Sant'Anna
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sábado, 8 de agosto de 2009

Possuir-te

.
.
É tão natural
que eu te possua
é tão natural que tu me tenhas,
que eu não me compreendo
um tempo houvesse
em que eu não te possuísse
ou possa haver um outro
em que eu não te tomaria.
.
Venhas como venhas,
é tão natural que a vida
em nossos corpos se conflua,
que eu já não me consinto
que de mim tu te abstenhas
ou que meu corpo te recuse
venhas quando venhas.
.
E de ser tão natural
que eu me extasie
ao contemplar-te, e de ser tão natural
que eu te possua,
em mim já não há como extasiar-me
tanto a minha forma
se integrou na forma tua.
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Affonso Romano de Sant'Anna

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sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Eu sei quando te amo

.
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Eu sei quando te amo:
é quando com teu corpo eu me confundo,
não apenas nesta mistura de massa e forma,
mas quando na tua alma eu me introduzo
e sinto que meu sangue corre em ti,
e tudo que é teu corpo
não é que um corpo meu
que se alongou de mim.
.
Eu sei quando te amo:
é quando eu te apalpo e não te sinto,
e sinto que a mim mesmo então me abraço,
a mim que amo e sou um duplo,
eu mesmo e o corpo teu pulsando em mim.
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Affonso Romano de Sant'Anna

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