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quinta-feira, 3 de agosto de 2023

É nesse ponto de tuas coxas

 


É nesse ponto
de tuas coxas
que o meu pescoço
implora a forca

Mas dás-lhe o trono
da luz da sombra
num sorvedouro
de rosas roxas

Agreste gosto
de húmida polpa
o que dissolvo
dentro da boca

Eis num renovo
mágica força
Rei me coroo
em tuas coxas


David Mourão-Ferreira
"XXII" in O Corpo Iluminado 

 

 

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Ternura amarrotada



Desvio dos teus ombros o lençol que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol, quando depois do Sol não vem mais nada...
Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio, como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...
Mas ninguém sonha a pressa
com que nós a despimos assim que estamos sós.

David Mourão Ferreira 



 



terça-feira, 16 de novembro de 2010

Segredo



Nem o tempo tem tempo
para sondar as trevas

deste rio correndo
entre a pele e a pele

Nem o tempo tem tempo
nem as trevas dão tréguas

Não descubro o segredo
que o teu corpo segrega

David Mourão Ferreira
No Veio do Cristal

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Tu vens todos os dias à noitinha



Tu vens todos os dias à noitinha
e despes-te com tanta lentidão
com tanta lentidão que se adivinha
a forma do teu próprio coração.

E quando vais é já noite fechada
não sei se vou ficar se vou sair
não posso ter a alma sossegada
sem saber se amanhã tornas a vir

David Mourão-Ferreira


quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Ternura amarrotada



Desvio dos teus ombros o lençol,
Que é feito de ternura amarrotada,
Da frescura que vem depois do sol,
Quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te lentamente,
E é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão Ferreira


terça-feira, 23 de março de 2010

Nem todo o corpo é carne

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Nem todo o corpo é carne ... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco?
E o ventre, inconsistente como o lodo?
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor ... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo
É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio
vulto da Primavera em pleno Outono
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

David Mourão-Ferreira

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domingo, 22 de novembro de 2009

A pressa com que se despe

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A pressa com que se despe
Nem na alma lhe apetece
qualquer veste
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A pressa com que se despe
Até da carne e da pele
se pudesse
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David Mourão Ferreira

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quinta-feira, 23 de julho de 2009

Existes

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Nada garante que tu existas.
Näo acredito que tu existas.
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Só necessito que tu existas.
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David Mouräo Ferreira
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