
Não conhece a arte de navegar
quem nunca navegou no ventre
de uma mulher, remou nela,
naufragou
e sobreviveu
numa de suas praias.
Cristina Peri Rossi
Não conhece a arte de navegar
quem nunca navegou no ventre
de uma mulher, remou nela,
naufragou
e sobreviveu
numa de suas praias.
Cristina Peri Rossi
Meu corpo arde,
ferve -
chama-te
Esta tarde
vou morrer de febre
incendiar a cama
as vestes
virar tocha humana
Líria Porto
Escalar-te lábio a lábio,
percorrer-te: eis a cintura
o lume breve entre as nádegas
e o ventre, o peito, o dorso
descer aos flancos, enterrar
os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,
entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,
esquecer a mão errante
na festa ou na fresta
aberta à doce penetração
das águas duras,
respirar como quem tropeça
no escuro, gritar
às portas da alegria,
da solidão.
Porque é terrível
subir assim às hastes da loucura,
do fogo descer à neve
abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho -
a glande leve.
Eugenio de Andrade
Maria Gabriela Llansol
No meu corpo vivem
As Todas as formas das tuas mãos
Quando em movimentos lentos
Retomo cada gesto que me encheu
E cada lugar nunca antes habitado
Por ter sido a ti que entreguei uma pele sem véu
Madalena Palma
Bénédicte Houart
Dispa-me
Mas dispa-me completamente. Certifica-te de
que nada em mim excede. Tira-me todo pano
todo pudor, todo porvir. Dispa-me dessa
mulher madura que insisto em ser.
Tira de mim essa sensação de que há
sempre só partida para os meus amores.
Dispa-me dessa fome que tanto me revela,
dessa insegurança, dessa timidez.
Mas, quero ser despida ao sol.
Preciso estar certa do que me tiras.
Dispa-me logo dessa mágoa; que finjo
não sentir. Porque agora quero
estar assim ... desabitada
Deixa-me docemente desguarnecida.
E só me veste de novo se for com as tuas mãos
em concha, assim como um parênteses
no meio do dia.
Solange Maia