Muitas bocadas
E outras vontades
Insaciadas:
Só nos resta
Comer
Pelas beiradas?
Cris de Souza
Com a ponta dos teus lábios tocas-me, ao de leve, a curva da orelha. Arrepio. Dizes-me o que se segue. A tua mão que procura a minha, toca-a, segue por mim acima, demora-se no meu ombro e segura-me o cabelo. Arrepio.
A tua boca na minha nuca, no meu pescoço, a descer a linha da costas. Arrepio.
Voltas à minha orelha. Segredas-me o que vais fazer a seguir. Pernas a tremer. Respiração presa na ânsia do que se segue. Viras-me para ti. Colas-me a ti, encaixas-me em ti. Arrepio...
As minhas mãos que levas até ti. Apertas-me em ti. A tua boca no canto da minha. A dizer-me o que se segue. Pegas-me. Sem cuidado, só com vontade. Nem sei sorrir, só me deixo seguir. As tuas pernas a puxarem-me para ti. Os teus braços fortes a fazerem-me deslizar. Por ti. Arrepio, arrepio, arrepio.
Sentes-me, sinto-te. Perguntas-me «Estás a sentir-me?», não respondo, as palavras já as perdi há muito, aceno apenas ao de leve com a cabeça. Apertas-me ainda mais.
Dizes-me o que queres agora. Arrepio, arrepio, arrepio, arrepio!
A bancada fria da cozinha, gela-me o corpo. Assim estou na medida perfeita para ti. Como me segredaste antes. Sinto-te agora a tremer, a respiração descompassada. De tão colados que estamos já nem sei se é o meu, se o teu coração que bate tão desconcertado.
Dizemos um ai e já não sei se fui eu, se tu.
Uma lágrima quente desliza devagarinho, leve leve, na minha pele. Não te preocupes. É um arrepio.
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No silêncio que guardo
quando partes
que escondes sob os
dedos
que se prende
que me deixa no corpo
este calor
da falta do teu corpo como sempre
Maria Teresa Horta
Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber a coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.
Rosa Lobato de Faria
Da margem do sonho
e do outro lado do mar
alguém me estremece
sem me alcançar.
Um bafo de desejo
chega, vago, até mim.
Perfume delido
de impossível jasmim.
É ele que me sonha?
Sou eu a sonhar?
Sabê-lo seria
desfazer, no vento,
tranças de luar.
Nuvens,
barcos,
espumas
desmancham-se na noite.
E a vida lateja, longe,
num outro lugar.
Luisa da Costa
in Cem Poemas Portugueses no Feminino
Teu corpo:
um porto
que eterniza
meus navios
um parto
que traduz
o meu avesso
a parte
que arremata
meu desejo.
Maria Esther Maciel
De Dos Haveres do Corpo (1984)
A tua boca. A tua boca.
Oh, também a tua boca.
Um túnel para a minha noite.
Um poço para a minha sede.
Os fios dormentes de água
que a tua língua solta num grito cor-de-rosa
e a minha língua sorve e canta
e os meus dentes mordem derramando a seiva
da tua primavera sem palavras
o poema inquieto e livre que a tua boca oferece
à minha boca.
As loucas bebedeiras de ternura
por essa viagem até ao sangue.
Os beijos como fogueiras.
As línguas como rosas.
Oh, a tua boca para a minha boca.
Joaquim Pessoa
As nossas bocas misturam-se com as línguas,
o corpo inflama-se, dói quase.
Deixa-me beijar-te por dentro.
Pedro Paixão
Por uma noite, um tempo te vou esperar
pois a vida não tem horas
quando as nossas vozes roucas se procuram,
de tanto aguardar, as mãos se retorcem
para depois se acariciarem.
Não pode haver tempo nem pressa
neste livro que se permite ler devagar.
Lília Tavares
Nossa nudez
aviva a topografia do idílio:
rios de suor,
mares de luz,
montanhas de sorrisos;
juntos reafirmamos
tudo que foi dito:
do amor nasce o céu
D'Almeida Souza
Noites em que tuas mãos aliadas,
Como que em prece
Far-me-ão cerrar os olhos
Por um breve instante.
E eu deixarei sair de meus pulmões
O sopro da quietude.
Carlos Feitosa Tesch
Escreverei
- Em vermelho -
A palavra Éden
Em teu ventre,
Criando, assim,
Meu paraíso
Dentro de ti.
Anderson Christofoletti
Despi-a vagarosamente com os olhos,
com as mãos,
com os lábios.
O sexo tinha a elevação de uma eira
cheia de trigo queimado e um sendeiro cor de romã.
Entrei por ela como um arado esgarçando a terra úmida
e senti-lhe a pele por dentro, suave,
como um forro de cetim no vestido da sua nudez.
João Morgado
Na tarde em que levantaste a minha saia
e o fura bolo sorrateiro rodopiou os caracóis, o montinho arrepiado
abriu meus lábios num sorriso
eu ali em pé paradinha ao teu meu nosso bel prazer,
quando teus olhos suspendem e perguntam "e agora?¿"
... passei o vestido pela cabeça e me sentei sobre tuas coxas
... hoje ao relembrar, faço de mim rio com a mesma intensidade daquela única tarde de esplendor!
Lucia de Moura Chamma
E a tua nuca era tão ébano
o teu peito tão abismo
e os meus dedos tão marfim
que teu corpo era um sismo
tremendo de amor por mim
São Reis
Dobrou-se sobre ela puxou-lhe fogo
Escancarou-lhe os olhos puxou-lhe fogo
Cerziu-se-lhe no peito puxou-lhe fogo
Tirou-lhe pó de cima puxou-lhe fogo
Sentiu-se tão pesado puxou-lhe fogo
Cobriu-a de ar; destapou-lhe a carne; mordeu.
Era fim de tarde era depressa era comprido
Verteu palavras tenras até já não ter voz
Chorou, soletrou-lhe o corpo membro a membro
E foi no soalho a solidão de a desventrar
Tremeu tremeu puxou-lhe fogo
E ela ardeu.
Manuel Cintra
Amalia Bautista
Há algo de sagrado sobre a superfície do teu corpo que me fascina,
Mas é o profano - regente ávido de tuas linhas e ânsias -
que, ao aflorar de teu cerne, reinventa meu conceito de pecado.
Meu corpo já aprendeu a professar os dogmas de teu corpo;
Aprendeu a cultuá-lo como fonte de luz e escuridão.
Anderson Christofoletti