quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Sobremesa

 


 

Muitas bocadas
E outras vontades
Insaciadas:
Só nos resta
Comer
Pelas beiradas?

Cris de Souza

 

 

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Trinta mil cavalos

 


 Tem trinta mil cavalos
A galopar no peito quando a seu lado eu me deito

Jorge Palma

 

 

Hot

 


Com a ponta dos teus lábios tocas-me, ao de leve, a curva da orelha. Arrepio. Dizes-me o que se segue. A tua mão que procura a minha, toca-a, segue por mim acima, demora-se no meu ombro e segura-me o cabelo. Arrepio.

A tua boca na minha nuca, no meu pescoço, a descer a linha da costas. Arrepio.

Voltas à minha orelha. Segredas-me o que vais fazer a seguir. Pernas a tremer. Respiração presa na ânsia do que se segue. Viras-me para ti. Colas-me a ti, encaixas-me em ti. Arrepio...

As minhas mãos que levas até ti. Apertas-me em ti. A tua boca no canto da minha. A dizer-me o que se segue. Pegas-me. Sem cuidado, só com vontade. Nem sei sorrir, só me deixo seguir. As tuas pernas a puxarem-me para ti. Os teus braços fortes a fazerem-me deslizar. Por ti. Arrepio, arrepio, arrepio.

Sentes-me, sinto-te. Perguntas-me «Estás a sentir-me?», não respondo, as palavras já as perdi há muito, aceno apenas ao de leve com a cabeça. Apertas-me ainda mais.

Dizes-me o que queres agora. Arrepio, arrepio, arrepio, arrepio!

A bancada fria da cozinha, gela-me o corpo. Assim estou na medida perfeita para ti. Como me segredaste antes. Sinto-te agora a tremer, a respiração descompassada. De tão colados que estamos já nem sei se é o meu, se o teu coração que bate tão desconcertado.

Dizemos um ai e já não sei se fui eu, se tu.

Uma lágrima quente desliza devagarinho, leve leve, na minha pele. Não te preocupes. É um arrepio.


http://historiasdenos.blogspot.com




quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

No silêncio que guardo

 

 

No silêncio que guardo
quando partes
que escondes sob os
dedos
que se prende
que me deixa no corpo
este calor
da falta do teu corpo como sempre
 

Maria Teresa Horta 

 

 

 

Quem me quiser

 

 

Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente

- Ou então não saber a coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.
 

Rosa Lobato de Faria 

 

 

 

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Da margem do sonho

 

 

Da margem do sonho
e do outro lado do mar
alguém me estremece
sem me alcançar.

Um bafo de desejo
chega, vago, até mim.
Perfume delido
de impossível jasmim.

É ele que me sonha?
Sou eu a sonhar?
Sabê-lo seria
desfazer, no vento,
tranças de luar.

Nuvens,
barcos,
espumas
desmancham-se na noite.

E a vida lateja, longe,
num outro lugar.

Luisa da Costa
in Cem Poemas Portugueses no Feminino

 

 

Teu corpo

 

 

Teu corpo:

um porto
que eterniza
meus navios

um parto
que traduz
o meu avesso

a parte
que arremata
meu desejo.


Maria Esther Maciel
De Dos Haveres do Corpo (1984)

 

domingo, 25 de dezembro de 2022

A tua boca

 

A tua boca. A tua boca.
Oh, também a tua boca.
Um túnel para a minha noite.
Um poço para a minha sede.

Os fios dormentes de água
que a tua língua solta num grito cor-de-rosa
e a minha língua sorve e canta
e os meus dentes mordem derramando a seiva
da tua primavera sem palavras
o poema inquieto e livre que a tua boca oferece
à minha boca.

As loucas bebedeiras de ternura
por essa viagem até ao sangue.
Os beijos como fogueiras.
As línguas como rosas.

Oh, a tua boca para a minha boca.
 

Joaquim Pessoa

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Meti-me pelo teu fogo adentro

 


 

Para dizer que a tua porta ardia por fora e ninguém se importava. 
Que certas palavras interrompidas começaram a agitar-se na minha cabeça. 
Meti-me pelo teu fogo adentro, ninguém se importava, e disse tudo até ao fim. 
Nunca tinha dito tudo até ao fim.

Vasco Gato


domingo, 20 de março de 2022

As nossas bocas

 


As nossas bocas misturam-se com as línguas, 

o corpo inflama-se, dói quase. 

Deixa-me beijar-te por dentro.

 

Pedro Paixão

 

 

sábado, 19 de março de 2022

Por uma noite

 

...

Por uma noite, um tempo te vou esperar
pois a vida não tem horas
quando as nossas vozes roucas se procuram,
de tanto aguardar, as mãos se retorcem
para depois se acariciarem.

Não pode haver tempo nem pressa
neste livro que se permite ler devagar.

Lília Tavares

 

 

sexta-feira, 18 de março de 2022

Nossa nudez

 


Nossa nudez
supera o além das vestes.
Quando regressas
é como se os continentes
voltassem ao tempo de Pangeia:
nada separa o que sempre está unido

Nossa nudez
aviva a topografia do idílio:
rios de suor,
mares de luz,
montanhas de sorrisos;
juntos reafirmamos
tudo que foi dito:
do amor nasce o céu
 

D'Almeida Souza 

 

 

quinta-feira, 17 de março de 2022

Sopro da quietude


 

Noites em que tuas mãos aliadas,
Como que em prece
Far-me-ão cerrar os olhos
Por um breve instante.
E eu deixarei sair de meus pulmões
O sopro da quietude.
 

Carlos Feitosa Tesch


 

segunda-feira, 14 de março de 2022

Dentro de ti

 


Escreverei
- Em vermelho -
A palavra Éden
Em teu ventre,
Criando, assim,
Meu paraíso
Dentro de ti.

Anderson Christofoletti

 

 



sexta-feira, 11 de março de 2022

Despi-a vagarosamente

 


Despi-a vagarosamente com os olhos,
com as mãos,
com os lábios.
O sexo tinha a elevação de uma eira
cheia de trigo queimado e um sendeiro cor de romã.
Entrei por ela como um arado esgarçando a terra úmida
e senti-lhe a pele por dentro, suave,
como um forro de cetim no vestido da sua nudez.

João Morgado

 

 



quinta-feira, 10 de março de 2022

Rascunho de A a Z

 


Na tarde em que levantaste a minha saia
e o fura bolo sorrateiro rodopiou os caracóis, o montinho arrepiado
abriu meus lábios num sorriso
eu ali em pé paradinha ao teu meu nosso bel prazer,
quando teus olhos suspendem e perguntam "e agora?¿"

... passei o vestido pela cabeça e me sentei sobre tuas coxas
... hoje ao relembrar, faço de mim rio com a mesma intensidade daquela única tarde de esplendor!

Lucia de Moura Chamma 

 

 

 

quarta-feira, 9 de março de 2022

E a tua nuca era tão ébano

 


E a tua nuca era tão ébano
o teu peito tão abismo
e os meus dedos tão marfim
que teu corpo era um sismo
tremendo de amor por mim

São Reis



terça-feira, 8 de março de 2022

E ela ardeu

 


Dobrou-se sobre ela puxou-lhe fogo
Escancarou-lhe os olhos puxou-lhe fogo
Cerziu-se-lhe no peito puxou-lhe fogo
Tirou-lhe pó de cima puxou-lhe fogo
Sentiu-se tão pesado puxou-lhe fogo
Cobriu-a de ar; destapou-lhe a carne; mordeu.

Era fim de tarde era depressa era comprido
Verteu palavras tenras até já não ter voz
Chorou, soletrou-lhe o corpo membro a membro
E foi no soalho a solidão de a desventrar
Tremeu tremeu puxou-lhe fogo

E ela ardeu.

Manuel Cintra 

 

 

segunda-feira, 7 de março de 2022

Dizes que me amas

 


 Dizes que me amas de uma tal forma,
que não consigo deixar de corar;
que me amas de um modo primitivo,
sem razão aparente e sem desculpas
e que me amas porque me desejas,
porque sabes que eu também te amo
e como o monstro deste amor nos devora
a alma, a paciência e as maneiras.
É uma pena que todas estas coisas
morram em nós afogadas de silêncio.
 

Amalia Bautista 

 

 

domingo, 6 de março de 2022

Há algo de sagrado

 

 

Há algo de sagrado sobre a superfície do teu corpo que me fascina,
Mas é o profano - regente ávido de tuas linhas e ânsias -
que, ao aflorar de teu cerne, reinventa meu conceito de pecado.
Meu corpo já aprendeu a professar os dogmas de teu corpo;
Aprendeu a cultuá-lo como fonte de luz e escuridão.
 

Anderson Christofoletti 

 

 


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