quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Nude

 


E aí baby, você me pediu uma foto, nua ou seminua, e eu não tinha e nem sabia mandar inbox. Então te mando essa, eu não sou ela, não tenho toda essa beleza rara das deusas! Mas por dentro e na essência que se derrama pelo meu corpo de mulher, eu sou exatamente ela! Dou a ti esse presente, que é único e só pra você, porque com qualquer outro já seria outra, mas contigo sou esse esplendor de erotismo e sensualidade! 

Toma ele (o presente) e a mim com toda fome e sede que puderes conceber! Toma ele e a mim como se fosse uma religião! Toma ele e a mim com todo teu tesão! Toma ele e a mim como se fosse joia rara! Toma ele e a mim como flor nascida nos alpes! Toma ele e a mim como bicho em extinção! Como doce caro! Como vinho raro! 

Mas também me pega sem pudor, como coisa barata, que se acha na esquina! Como coisa vadia, que os gatos trazem na boca! Como coisa gostosa, que nem brincadeira de criança! Porque agora me dou em tuas mãos, como luva, como unha, como a mais fina cutícula! E não se engane, eu não sou boazinha, faço isso por interesse, pra que você vá se aquecendo com essas mãos nas quais eu me derreterei no mais puro mel!

Cari Lobo




segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Ex-tinto

 



Despe-se
Toda pele
E tua boca
Me embebe

Cris de Souza





quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Arder debaixo do chuveiro

 


Há alguém no mundo, não sei onde,
ou antes sei,
mas prefiro esquecê-lo,
que me despe só com um olhar
e me sonha vestida de princesa.
Alguém com quem não posso resistir
a arder debaixo do chuveiro.
Alguém com quem se torna inevitável
suar dentro de um iglu.

Amália Bautista 

 

 

 


quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Dedo de moça


 

de
leve
pôs o dedo
e
provou
gostoso gosto
sentido sem reserva
pôs o dedo
pôs
de novo
e suspirou gostando
muito
dedo bom
de mira certa
brincadeira
de quem
o gostoso da
vida
tirar sabe

CatiahoAlc.

 

 

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

É nesse ponto de tuas coxas

 


É nesse ponto
de tuas coxas
que o meu pescoço
implora a forca

Mas dás-lhe o trono
da luz da sombra
num sorvedouro
de rosas roxas

Agreste gosto
de húmida polpa
o que dissolvo
dentro da boca

Eis num renovo
mágica força
Rei me coroo
em tuas coxas


David Mourão-Ferreira
"XXII" in O Corpo Iluminado 

 

 

quarta-feira, 26 de julho de 2023

Sem pressa mas com urgência

 


vem e se perca no meu corpo
vem como se fosse um rio caudaloso
em busca de uma foz pra desaguar.

vem, vem
mas vem sem pressa
com urgência, mas sem pressa
o tempo já parou nessa hora
parou só prá nós.

fique,
sem pressa,
mas com urgência
pois o tempo é nosso
e é tão breve, tão breve.

Dalva Nascimento

 

 

quinta-feira, 1 de junho de 2023

Tanto faz se faz tanto frio

 


Tanto faz se faz tanto frio
ou se, lá fora,
a chuva obsessiva percorre seus caminhos verticais
e desliza pelo telhado para nos espreitar pelas vidraças.
Aqui dentro,
danço acesa
e palavras líquidas encharcam nossos corpos de saliva
nessa eterna brincadeira que inventamos
de apagar labaredas com a língua.

Marla de Queiroz

 

 

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Respira

 

 



Respira
o sabor de um beijo, o toque de um afago, o som de um arfar.
Respira
a mão de fogo de quem te ama, o suor em êxtase de quem te chama.
E o abraço que não passa, e as palavras que te embraçam, e os olhares que te apertam.

Respira – para saberes que vale a pena continuar.


Pedro Chagas Freitas 

 

 

 

sexta-feira, 26 de maio de 2023

Dormes ainda

 


Acordo. Dormes ainda.
Que fazer se me apetece?
Pego na tua mão
e pouso-a onde estou vivo.
Respiras. Andantino.
As costas para mim. Não resisto.
Os dedos, leves, ensalivados,
vão à procura do grão, do seu
pólen. Vão e vêm, vou e venho.
Beijo-te no ombro. Sorris.
Dormes ainda? Subitamente
abres os olhos e abres a boca
e debruças-te sobre mim.
O dia principia.
 
Casimiro de Brito

 

 

 

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Ficas dentro de mim

  


Ficas dentro de mim, como se fosse
eterno o movimento do teu corpo,
e na carne rasgada ainda pudesse
a noite escura iluminar-te o rosto.

No teu suor é que adivinho o rastro
das palavras de amor que não dissestes,
e no teu dorso nu escrevo o verso
em pura solidão acontecido.

Transformo-me nas coisas que tocastes,
crescem-me seios com que te alimente
o coração demente e mal fingido;

depois serei a forma que deixastes
gravada a lume com sabor a cio
na carícia de um gesto fugidio.
 

Antonio Franco Alexandre 



Falas de amor

 


Mansamente falas do amor
Vibras esse amor
Quando percebo vibro em ti
 

Kwothinye 

 

 

 

terça-feira, 2 de maio de 2023

Deixas rastro no meu peito

 

 


Deixas rastro no meu peito durante horas. Dou com
cabelos teus colados, dias depois, à roupa do meu sorriso.
Encontro nos vincos mais longínquos dos meus
dedos o cheiro parado do teu olhar tão móvel. Procuro-te
nas esquinas dos instantes que passam. Reconheço-te
no vinco que a ternura deixa na carne do peito do
meu olhar, aquele que deito para longe, para outra esquina,
de onde recebo mensagens de outro olhar igualmente
teu, igualmente meu, refletido na vitrine de
uma loja do nosso sono.

Deslizo. Deito-me sobre as lembranças.
(...)
O amor compassado e irregular como um signo.

E procuro-te sempre, na ausência da carne que os dias
me traçam na pele.

E depois na presença eu
presença tu.
 

Manuel Cintra

 

 

domingo, 23 de abril de 2023

Naufragar


 

Não conhece a arte de navegar
quem nunca navegou no ventre
de uma mulher, remou nela,
naufragou
e sobreviveu
numa de suas praias.

Cristina Peri Rossi

 

 

 

Meu corpo arde

 

 

Meu corpo arde,
ferve -
chama-te
Esta tarde
vou morrer de febre
incendiar a cama
as vestes
virar tocha humana

Líria Porto

 

 

sexta-feira, 21 de abril de 2023

Escalar-te lábio a lábio

 


 

Escalar-te lábio a lábio,
percorrer-te: eis a cintura
o lume breve entre as nádegas
e o ventre, o peito, o dorso
descer aos flancos, enterrar

os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,
entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,
esquecer a mão errante
na festa ou na fresta

aberta à doce penetração
das águas duras,
respirar como quem tropeça
no escuro, gritar
às portas da alegria,
da solidão.

Porque é terrível
subir assim às hastes da loucura,
do fogo descer à neve

abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho -
a glande leve.

Eugenio de Andrade 

 

 

Nas tuas mãos

 

 

Nas tuas mãos começava
O mundo
E nada
Nem o dia
Podia ser mais perfeito...

Ana Paula Tavares

 

 

 

domingo, 9 de abril de 2023

Saber esperar alguém

 


Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objetos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objeto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti
até que a dor alegre recomece.


Maria Gabriela Llansol 

 

 

 

As formas das tuas mãos

 


No meu corpo vivem
As Todas as formas das tuas mãos
Quando em movimentos lentos
Retomo cada gesto que me encheu
E cada lugar nunca antes habitado
Por ter sido a ti que entreguei uma pele sem véu

Madalena Palma

 

 

Não

 

nem todos os homens que
saem de minha casa saem de minha cama
nem todos aqueles que
saem da minha cama saem de dentro de mim
nem todos os que
saem de dentro de mim chegaram sequer a lá entrar
não, nada é tão líquido assim

Bénédicte Houart









terça-feira, 4 de abril de 2023

Dispa-me

 


Dispa-me
Mas dispa-me completamente. Certifica-te de
que nada em mim excede. Tira-me todo pano
todo pudor, todo porvir. Dispa-me dessa
mulher madura que insisto em ser.
Tira de mim essa sensação de que há
sempre só partida para os meus amores.
Dispa-me dessa fome que tanto me revela,
dessa insegurança, dessa timidez.
Mas, quero ser despida ao sol.
Preciso estar certa do que me tiras.
Dispa-me logo dessa mágoa; que finjo
não sentir. Porque agora quero
estar assim ... desabitada
Deixa-me docemente desguarnecida.
E só me veste de novo se for com as tuas mãos
em concha, assim como um parênteses
no meio do dia.

Solange Maia

 

 

 

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