segunda-feira, 30 de outubro de 2017



Rega-me - peço-te. Carinhosamente.
Todos os dias. Até me deixares morrer.

Fátima Abreu Ferreira




Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os dias
para te dizer, com a simplicidade do bater do coração,
que afinal ao pé de ti apenas sinto as mãos mais frias
e esta ternura dos olhos que se dão.
...
José Gomes Ferreira


domingo, 18 de junho de 2017



Tu vens todos os dias à noitinha
E despes-te com tanta lentidão
Com tanta lentidão que se adivinha
A forma do teu próprio coração

E quando vais é já noite fechada
Não sei se vou ficar se vou sair
Não posso ter a alma sossegada
Sem saber se amanhã tornas a vir

David Mourão Ferreira


domingo, 27 de novembro de 2016



Lençóis alvos e desfeitos,
Peles bordadas por mãos e anseios,
Éden florido no profano desejo,
Caminhos desbravados em doce enleio,
Palavras caladas em brando silêncio,
Sinfonia de corpos
gementes, sedentos,
O fruto que cai ao último suspiro,
O grito que ecoa
para além do momento.

Cristina Correia


domingo, 26 de junho de 2016

Fogo posto



(...)

à entrada da noite
como se a luz doesse
entre o desejo
e o espasmo lentíssimo relâmpago
a mão.

Eugénio de Andrade


sexta-feira, 24 de junho de 2016



Não há memória mais terrível do que a da pele;
a cabeça pensa que esquece, o coração sente que passou,
e a pele arde, invulnerável ao tempo.


Inês Pedrosa

terça-feira, 14 de junho de 2016



Sob o chuveiro amar, sabão e beijos,
ou na banheira amar, de água vestidos,
amor escorregante, foge, prende-se,
torna a fugir, água nos olhos, bocas,
dança, navegação, mergulho, chuva,
essa espuma nos ventres, a brancura
triangular do sexo — é água, esperma,
é amor se esvaindo, ou nos tornamos fonte?

Carlos Drummond de Andrade


segunda-feira, 13 de junho de 2016




Fico vulnerável quando ele
me beija o pescoço é como se o meu corpo
entrasse em erupção de desejos.

Amaury Caíque

quinta-feira, 2 de junho de 2016

As mãos



Essa região desconhecida que nos aproxima e afasta ao mesmo tempo.

Perco-me na penumbra do que queria ter gritado e não pude.

O desejo resgata-nos do abismo,
mas também se ergue o que no admite consolo.

Palavras como pássaros na solidão do ar.


Lucía Estrada


quarta-feira, 1 de junho de 2016




Na tua pele toda a terra treme
alguém fala com Deus alguém flutua
há um corpo a navegar e um anjo ao leme.

Das tuas coxas pode ver-se a Lua
contigo o mar ondula e o vento geme
e há um espírito a nascer de seres tão nua…

Manuel Alegre


domingo, 22 de maio de 2016

Noturno



Meu pensamento em febre
é uma lâmpada acesa
a incendiar a noite.

Meus desejos irrequietos,
à hora em que não há socorro,

dançam livres como libélulas
em redor do fogo.


Henriqueta Lisboa


quinta-feira, 19 de maio de 2016

Os Amantes




As palavras amendoam o sorriso,
amado, amada
conversam e conversam,
deitados lado a lado

depois, e devagar,
maciamente
passam à pele absoluta do silêncio.

Isabel Cristina Pires



quarta-feira, 18 de maio de 2016

Poema Quinquagésimo Sétimo



Escrevo-me como se fosse
um poema, para dizer quanto te amo.
E levo, num beijo, essas palavras até à tua boca,
ofereço-tas, ansiosas e úmidas, com a mais doce
impaciência. Sorves na tua boca a minha língua
que canta todo o amor, que dá recados vibrantes
à tua carne, e faz do tamanho da noite as tuas pupilas.
Pergunto-me porque cantas e porque canto
quando a minha boca e a tua boca são uma boca
apenas, um corpo apenas, um longo poema
com uma só palavra.

Joaquim Pessoa
em "Guardar o Fogo"


terça-feira, 10 de maio de 2016

.

.


Quimica boa é quando mesmo de longe,
você escuta a vontade gemer.


Sylvia Pereira

quinta-feira, 5 de maio de 2016



O momento das carícias voltou a entrar no quarto,
pediu desculpa por ter-se demorado tanto lá fora,
Não encontrava o caminho, justificou-se, e,
de repente, como aos momentos algumas vezes acontece,
tornou-se eterno.

José Saramago



quarta-feira, 4 de maio de 2016

Sob o chuveiro




Sob o chuveiro amar, sabão e beijos,
ou na banheira amar, de água vestidos,
amor escorregante, foge, prende-se,
torna a fugir, água nos olhos, bocas,
dança, navegação, mergulho, chuva,
essa espuma nos ventres, a brancura
triangular do sexo — é água, esperma,
é amor se esvaindo, ou nos tornamos fonte?

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 3 de maio de 2016

Ida e volta



Quando nos encaminhamos para o amor
todos vamos ardendo.
Levamos amapolas nos lábios
e uma centelha de fogo no olhar.
Sentimos que o sangue
nos golpeia as têmporas, as pelves, os pulsos.
Damos e recebemos rosas vermelhas
e vermelho é o espelho do quarto na penumbra.

Quando voltamos do amor, vagarosos,
desprezados, culpados
ou simplesmente estupefatos,
regressamos muito pálidos, muito frios.
Com olhos e cabelos envelhecidos e o número
de leucócitos nas alturas,
somos um esqueleto e sua derrota.

Porém continuamos indo.

Amalia Bautista

terça-feira, 12 de maio de 2015

Lembro



Lembro-me de ser sereia de olhos líquidos,
olhos aquário com peixes nadando devagar.
Lembro o canto suave
[ chamando o luar grávido de agosto ]
e de dançar na praia das tuas mãos macias.
Lembro o toque, o deslizar das mãos
no corpo vestido de algas e delícias.
Lembro as primícias de mil e uma noites
de astros acesos a transbordar de apelos.
No vagar dos sonhos serei sereia indefinidamente.


Maripa


domingo, 16 de março de 2014

Lembro



Lembro-me de ser sereia de olhos líquidos,
olhos aquário com peixes nadando devagar.
Lembro o canto suave
(chamando o luar grávido de agosto)
e de dançar na praia das tuas mãos macias.
Lembro o toque, o deslizar das mãos
no corpo vestido de algas e delícias.
Lembro as primícias de mil e uma noites
de astros acesos a transbordar de apelos.
No vagar dos sonhos serei sereia indefinidamente.

Maripa

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Apelo



Atravessa os campos da noite
e vem.

A minha pele
ainda cálida de sol
te será margem.

Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.

Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.

Atravessa os campos da noite
e vem.

Luísa Dacosta


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