sábado, 20 de abril de 2019
Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo
Nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.
Eu quero apenas amar-te lentamente
Como se o tempo fosse nosso
Como se todo o tempo fosse pouco
Como se nem sequer houvesse tempo.
Soltar os teus seios.
Despir as tuas ancas.
Apunhalar de amor o teu ventre.
Joaquim Pessoa
terça-feira, 9 de abril de 2019
Não me peças palavras, nem baladas, nem expressões, nem alma.
Abre-me o seio, deixa cair as pálpebras pesadas,
e entre os seios me apertes sem receio.
Na tua boca sob a minha, ao meio, nossas línguas se busquem, desvairadas.
E que os meus flancos nus vibrem
no enleio das tuas pernas ágeis e delgadas.
E em duas bocas uma língua... — unidos,
nós trocaremos beijos e gemidos, sentindo o nosso sangue misturar-se.
Depois... — abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada.
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!
José Régio
segunda-feira, 18 de março de 2019
Não levaste a minha carne
mesmo que se tenha misturado com tua.
E não levaste o meu sangue
mesmo que se tenha embebido do teu.
O prazer não se leva e mal se recorda,
e nem fica no rosto como tatuagem.
Então...depois de tudo o que ficou?
- Talvez as palavras que ao ouvido te dizia.
Não as saudades da carne, mas da poesia!
João Morgado
quarta-feira, 13 de março de 2019
quarta-feira, 7 de novembro de 2018
Assim me perguntaste,
assim te respondi:
tudo é paixão.
Como não lamber
da tua pele, o mel
que o desejo fabrica?
E como a minha boca
não recolher o néctar
da tua boca?
Ou como não sorver
das tuas mãos o pólen
da ternura?
E se, em vez de paixão,
for sexo apenas,
ou loucura?
Pode até não ser amor.
Mas, seja o que for,
não é pior.
Joaquim Pessoa
in “Ano Comum”
Só de amor
Tu acendes a chama
do meu corpo
pões a lenha ao fundo
em sítio seco
Procuras no desejo
o ponto certo
e convocas aí
o lume certo
Se a madeira demora
a ganhar fogo
tomas-me as pernas
e deitas lento o vinho
Riscas os fósforos todos
e depois
é mais um incêndio
que adivinho
Maria Tereza Horta
Que teu corpo se faça mar
num rosário de ondas, uma a uma
para que nelas possa eu afagar
os flancos úmidos da espuma.
Que roles na praia em perfeito desalinho
deixando a marca dos seios na areia
como itinerário e caminho
por onde meu desejo de ti vagueia.
Miguel Afonso Andersen
em "Circum-Navegações
Que me venha esse homem
Que me venha esse homem
Depois de alguma chuva
Que me prenda de tarde
Em sua teia de veludo
Que me fira com os olhos
E me penetre em tudo
Que me venha esse homem
De músculos exatos
Com um desejo agreste
Com um cheiro de mato
Que me prenda de noite
Em sua rede de braços
Que me venha com força
Com gosto de desbravar
Que me faça de mata
Pra percorrer devagar
Que me faça de rio
Pra se deixar naufragar
Que me salve esse homem
Com sua febre de fogo
Que me prenda no espaço
De seu passo mais louco
Que me venha esse homem
Que me arranque do sono
Que me venha esse homem
Que me machuque um pouco.
Bruna Lombardi
Ter-te longe
e desejar-te aqui,
onde o frêmito do corpo acontece.
Aqui, lugar onde
o vício dos olhos e das mãos me inquieta.
Ah, ter-te perto
suster a respiração,
cerrar os olhos
e deixar que tudo comece
e acabe em ti.
Ensaiar o voo da águia
e suavemente planar sobre a superfície
sinuosa do teu corpo perfeito
no asa-delta da paixão.
Ter-te perto
sentir o perfume da tua presença
pelo calor do corpo,
pela claridade dos olhos
e pensar
que o sol e a alegria
de cada manhã
nascem exatamente em ti.
Miguel Afonso Andersen
em "Circum-Navegações" (Raiz Perturbada)
Volúpia do vento
...
[excerto]
O vento, sob o céu de brumas carregado,
passa, ora langoroso, ora forte, medonho!
E tanto penso em ti, ó meu ausente amado!
que te sinto no vento e a ele, feliz me exponho
Com carícias brutais e com carícias mansas,
cuido que tu me vens, julgo-me toda tua...
Sou árvore a oscilar, meus cabelos são tranças...
E não podes saber do meu gozo violento,
quando me fico, assim, neste ermo, toda nua,
completamente exposta à volúpia do vento!
Gilka Machado
em "Volúpia do Vento"
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