
Tua boca de poesia
Passeia pelas minhas palavras
Fazendo do doce sabor
Um verso único de amor.
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Luna
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... Oh, a magnífica palpitação amorosa a meias com a morte! Não temas.
Deixa que as fúrias da paixão te mordam os sentidos.
No perigo está a salvação.
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Natália Correia
in As Núpcias
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Sê devastador e violento como a tempestade
ao abrir as gavetas, ao depor sobre a mesa
nenhuma razão que outros conheçam.
Alimenta-te
de mim e de ti, guarda as fotografias em paredes
brancas onde nenhuma ave se demore,
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abre-me as feridas, as mais recentes e as antigas.
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Sê brando e lento como as manhãs de dezembro
ao desfazerem-se em neve, esquece os recados,
os pequenos delitos escondidos em segredo.
Os telhados abrigam-nos da maledicência, do azar,
daquilo que o tempo gasta em passar sobre nós.
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Leva-me assim, como um acidente entre os dedos.
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Sê luminoso e intenso, ó meu amor, retrato escondido,
coleciona os declives, ensina-me essa geografia,
sê inocente e puro, mesmo que a noite interrompa a vida
e a nossa pele estremeça.
Deixa que bebamos
apenas se o prazer magoar onde nasce a sede,
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fala-me de mim e de ti, se nos sentarmos nas dunas.
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Francisco José Viegas
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Venho rendida,
Já não apaixonada, amor,
A paixão com a persistência
Deixou de queimar,
Como a dor com a persistência
Se deixa de sentir.
Agora venho rendida e calma,
Igual e mansa,
Sem marés vivas
Nem dias de levante,
Sou uma esperança constante,
Uma constante desesperada,
Só, sempre sozinha
Pelos mornos areais alaranjados
Onde ondas poentes
Se quebram em alvura.
Só, sempre pensando em ti,
Tentando não pensar,
Descer ao profundo do mar,
Revolver em mim o universo
Novo infinitamente;
Mas tu vens mais forte que o mar,
Mais forte do que eu,
E em vão tento convencer-me
Que não és,
Que não passas de abstrato desejo,
Sentimento incompleto,
Sem poder condensar-se.
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Teresa Balté
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Ah, fumarás demais, beberás em excesso,
aborrecerás todos os amigos com tuas
histórias desesperadas, noites e noites a fio
permanecerás insone, a fantasia desenfreada
e o sexo em brasa, dormirás dias adentro,
noites afora, faltarás ao trabalho, escreverás
cartas que não serão nunca enviadas,
consultarás búzios, números, cartas e astros,
pensarás em fugas e suicídios em cada minuto
de cada novo dia, chorarás desamparada
atravessando madrugadas em tua cama vazia,
não consegurás sorrir nem caminhar alheia
pelas ruas sem descobrires em algum jeito
alheio o jeito exato dele, em algum
cheiro estranho, o cheiro preciso dele
...
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Caio Fernando de Abreu
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