sábado, 20 de março de 2010

Toca-me

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Toca-me,
conjuga um verbo que conheças
no presente do indicativo,
soletra-o na segunda pessoa
do singular ao meu ouvido,
dá-me qualquer coisa
que me pareça eterno.

José Rui Teixeira

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sexta-feira, 19 de março de 2010

Vem

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Vem,
escreve comigo todas as palavras, os gritos,
os segredos que só nós sabemos.
As mãos e a boca saciando a fome que não finda.
Tudo é domarmos o destino,
o bridão nas nossas mãos, galope pleno.
Qualquer profundidade, a construiremos os dois,
com a vida subindo-nos à garganta.

Só colado ao teu , meu corpo se sabe corpo.
Por isso para que nada se perca,
para que não nos percamos, vem.

Silvia Chueire

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quinta-feira, 18 de março de 2010

Dize-me tu

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Diz-me tu como te amo.
Tu.
Que me tomaste as palavras
Que me tornaste desejo
E a quem em silêncio chamo
E a quem ardendo amo
Diz-me tu, meu amor.
Diz-me tu de nós.

Encandescente

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quarta-feira, 17 de março de 2010

Último abraço

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...
Este foi o nosso último abraço.
E quando,
daqui a nada, deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente os lábios ao teu copo
para sentir o sabor desse beijo que hoje não daremos...

Maria do Rosário Pedreira

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terça-feira, 16 de março de 2010

Por isso me perco...

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O meu passaporte
são as tuas mãos; o mapa que nos guia,
a respiração incerta do desejo.

«Por isso me perco», dizes.

«Por isso te encontro», respondo.

E a noite que
nos separa é o dia que nos reúne.

Nuno Júdice

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segunda-feira, 15 de março de 2010

O piano

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Decifra-me.
Se me queres,
tenta-me.
Há portas que estão
apenas aparentemente
fechadas. Abre-as.
Uma delas dá acesso a
uma sala e dentro dela
há um piano. Entra.
E toca-me.
Se teus dedos produzirem
música, terás
me aprendido.

Nalú Nogueira

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domingo, 14 de março de 2010

Memórias de mi piel

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Mi piel tiene memorias de tus manos
recorriendo el desnudo de mi entrega
tiene tu aroma
tu costado tu aliento
tu sabor
tu triunfo
mis derrotas
Mi piel tiene sonidos de ternuras
vibrando
cada encuentro en la penumbra
tiene tus restos y tus rastros
la luz opaca del deseo
y el rostro del amor
amaneciendo

Ana Maria Mayol

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sábado, 13 de março de 2010

Entrever

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Apenas te entrevi
e sei
das tuas mãos
- quanto mar a me tocar o corpo.
dos teus olhos entreabertos
- quanto céu a me dizer palavras.

Silvia Chueire

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sexta-feira, 12 de março de 2010

Move-se

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E contudo... O corpo move-se
Apesar do cansaço
Alagado em suor
O desejo reaceso
Que julgavas saciado
A vontade e o querer
Que julgavas satisfeitos
E despertam os sentidos
Que julgavas adormecidos
Quando na tua a minha boca diz
- Quero mais e mais de ti.

Encandescente

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quinta-feira, 11 de março de 2010

Escrava

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Teu poema, inclemente, me encarcera,
umedecendo, de gozo, os meus versos.
Espancando, com a pena, as minhas rimas,
se assanha, feito bicho, entre meus seios.

Teus dedos em tuas mãos; ágeis tentáculos,
aprisionam de vez minhas vontades,
deixando-me à mercê dos teus domínios,
amarrando-me os pulsos, como escrava.

O ar que me vem é da tua boca.
Meus gemidos quem sufoca é tua língua.
Teu verbo, desconexo aos meus ouvidos,
me faz louvar - indecente - o teu nome.

Em minha barriga, passeia impune o teu falo.
Sob teu corpo, o meu, é prazer e desgoverno.
Entre minhas coxas tu desenhas tua fúria,
em teu pescoço cravo dentes de poesia.

Mariza Lourenço

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quarta-feira, 10 de março de 2010

Nu e cru

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Envolve-me docemente.
Que os teus braços sejam abraço
envolvente.
Sem pressas manso com vagar devagar de-
va-ga-ri-nho.
Isso. Assim.

Mão na nuca com dedos vincados que
esmaguem meus lábios bem abertos contra
os teus em oferta. Que as línguas se
toquem, se entrelacem e deslacem nossos
corpos.
Isso. Assim.

Encosta-te, enrosca-te e sente o que
endurece, em mim e em ti, sob botões
arrancados à força, num repente
alucinado. Os lábios beijam. Os dentes
mordem.
Isso. Assim.

E, chegados aos ouvidos, aflorados os
lóbulos pelos recantos mais recônditos,
que os lábios sussurem, murmurem, repitam
e gritem, sem receios nem temores nem
medos nem terrores de que as paredes
oiçam e os vizinhos estremeçam...
Isso... Assim... Em uníssono...

...

Isso... assim...
Nus e crus.
O texto...
Eu e
tu.

Daniel Santiago

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terça-feira, 9 de março de 2010

Como quem morre

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...Como posso falar
Do desespero
Se a força do desejo
Em tua boca
É um delírio de pragas
E de beijos,

Se a angústia de perder
O que me mata
Faz-me a vida odiar
Mais do que a morte,

Pois que ao perder-te
Perco mais que a vida,
Perco o sonho, a memória,
A fantasia...

E este gosto de viver
Como quem morre.

Myriam Fraga

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segunda-feira, 8 de março de 2010

Meu prazer

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...
sou mulher que
— à distância —
goza um gozo doído
quando escuta seu homem dizer:
amor... assim?
e, gemendo, responde:
ai, amor... é sim.

Mariza Lourenço

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domingo, 7 de março de 2010

Eu sem ti

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...mas eu, sem ti, deito-me gelada sobre a cama
e digo palavras que queimam a boca por dentro - amor,

saudade, o teu nome e o nome das coisas que tocaste...

Maria do Rosário Pedreira

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sábado, 6 de março de 2010

Desatinos

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É pelas pontas dos meus dedos
caminhando na direcção da tua voz
que desliza um rio de desatinos
a descer meu ventre.

o coração tocado por um afecto longínquo
e tão próximo
que arde a minha pele.

Silvia Chueire

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sexta-feira, 5 de março de 2010

Ai, a tua boca...

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A tua boca
Ai a tua boca
Que me diz palavras loucas
Roucas abafadas
Entrecortadas de gemidos
Húmida a paixão na tua boca
Que a minha procura e cala
E morde e cola
Palavras minhas às tuas
Gemidos meus aos teus
E as tuas mãos…
Ai as tuas mãos
Impacientes curiosas
Furiosas
Abrem trilhos e caminhos
Rasgam espaços entre os braços
Os meus que se entrecruzam
E lutam e se rendem
E se baixam e retidos
Corpo rendido nas tuas mãos…
E o teu sexo
Que o meu roça e se encosta
E foge nas minhas pernas
E desce nas minhas coxas
E subitamente de repente
Me invade me preenche
Me completa
E eu repleta
E na tua boca…
Ai as palavras loucas
Que digo na tua boca.

De Encandescente

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quinta-feira, 4 de março de 2010

No es amor

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No es amor, no es amor
el estremecimiento que me ofreces,
la dependencia dócil del deseo,
no es amor.
La piel de transparente se hace alma
que el sudor cristaliza, puramente
transfigurada; pero es sólo el tiempo
que tarda ese tirano de tu cuerpo
en hacerse notar en estampida.
No es amor, lo conozco; yo no sé
qué cosa sea, pero no es amor.

Josefa Parra

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quarta-feira, 3 de março de 2010

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Se ouço falar de ti, comove-me o teu nome
(mas nem pensar em suspirá-lo ao teu ouvido);
se me dizem que vens, o corpo é uma fogueira -
estalam-me brasas no peito, desvairadas, e respiro
com a violência de um incêndio; mas parto
antes de saber como seria...

Maria do Rosário Pedreira

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terça-feira, 2 de março de 2010

Amor

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Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
essa perna é tua?, esse braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente á tua boca,
abre-se a alma à lingua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi facil, nunca,
também a terra morre.

Eugénio de Andrade

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segunda-feira, 1 de março de 2010

Procuro-te

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... Procuro-te
com os dedos da alma no mar obscuro do desejo,
como se não estivesses dentro de mim,
para lá do limite desta página,
rompendo a censura das horas -
amada secreta de uma noite,
e de todas as noites em que te sonho...

Nuno Júdice

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