terça-feira, 10 de dezembro de 2019
Por detrás do pano do beijo
Em ti,
por detrás do pano do beijo,
por detrás da força do abraço,
por detrás do barulho eterno de um gemido,
há toda a coragem de nada mais haver senão tudo.
Pedro Chagas Freitas
Fui imaginada para amar
Fui imaginada para amar
amar-te meu amor
mais do que eu queria
Na arte e no mistério
de me dar
na entrega secular
de que fugia
O enigma estará
no meu ficar
entregar-me a ti na rebeldia
Iludir as asas no voar
e ir além de mim
todos os dias
Maria Teresa Horta
Os corpos das mulheres também sonham
...
Os corpos das mulheres também sonham;
sonham com outros corpos, e suspiram, transpiram, dão de si.
Por vezes, no estremecer do sangue,
as mulheres que se deitam
não se reconhecem nas mulheres que acordam.
João Morgado
In: Diário dos Imperfeitos
Há mulheres
Há mulheres que querem que o seu homem seja o Sol.
O meu quero-o nuvem.
Há mulheres que falam na voz do seu homem.
O meu que seja calado e eu, nele, guarde meus silêncios.
No resto, quero que tenha medo e me deixe ser mulher.
Que ele seja homem em breves doses.
Que exista em mares, no ciclo das águas e dos ventos.
E, que de vez em quando, seja mulher tanto quanto eu.
As suas mãos as quero firmes quando me despir.
Mas ainda mais quero que ele me saiba vestir.
Como se eu mesma me vestisse e ele fosse a mão da minha vaidade.
Mia Couto
Deixa-me amar-te em tuas demoras
Deixa-me amar-te em tuas demoras, longas horas
Em que meu corpo se veste de céu à tua espera
E minhas mãos, em frenesi, acendem estrelas
Para alumiar-te, ainda que ausente estejas,
Fernanda Guimarães
Traz de novo, meu amor
traz
de novo, meu amor,
a transparência da água.
dá ocupação à minha ternura vadia.
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito,
e espanta, na gruta funda de mim,
os animais que atormentam o meu sono.
Mia Couto
Por que não vens agora, que te quero
Por que não vens agora, que te quero
E adias esta urgência?
Prometes-me o futuro e eu desespero
O futuro é o disfarce da impotência.
Hoje, aqui, já, neste momento,
Ou nunca mais.
A sombra do alento é o desalento
O desejo o limite dos mortais.
Miguel Torga
Deita-te aqui
Deita-te aqui – esta noite, dentro de mim,
está tanto frio.
Se fores capaz, cobre-me de beijos:
talvez assim eu possa esquecer para sempre
quem me matou de amor,
ou morrer de uma vez sem me lembrar.
Isso, abraça-me também:
onde os teus dedos tocarem
há uma ferida que o tempo não consegue transportar.
Mas fecho os olhos, se tu não te importares,
e finjo que essa dor é uma mentira.
Claro, o que quiseres está bem – tudo, ou qualquer coisa,
ou mesmo nada serve,
desde que o frio fique no laço das tuas mãos
e não regresse ao corpo que te deixo agora sepultar.
Não sentes frio, tu, dentro de mim?
Nunca nevou de madrugada no teu quarto?
Que país é o teu? Que idade tens?
Não, prefiro não saber como te chamas.
Maria do Rosário Pedreira
sexta-feira, 29 de novembro de 2019
Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo
Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo
nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.
Eu quero apenas amar-te lentamente
como se todo o tempo fosse nosso
como se todo o tempo fosse pouco
como se nem sequer houvesse tempo.
Soltar os teus seios.
Despir as tuas ancas.
Apunhalar de amor o teu ventre.
Joaquim Pessoa
Toco-me
Eu toco-me e pronuncio o teu nome
e enquanto ardo prometes sempre que voltas.
Não tenho a certeza, meu amor.
O mundo é um animal ofegante
cujo hálito contém a perdição das rosas.
José Agostinho Baptista
sexta-feira, 15 de novembro de 2019
Ainda me comoves
Ainda me comoves
quando sussurras o meu nome
e soletras na pele o ardor dos dedos
e beijos
quando entre todos os perfumes
eleges o meu cheiro
Ainda te comovo
quando à sede do teu corpo
anuncio a minha sede
e em silêncio
te digo a palavra Amor.
Fátima Guimarães
Eu era a tua poesia
(...)
E quando nos beijávamos e eu perdia respiração e,
entre suspiros, perguntava: em que dia nasceste?
E me respondias, voz trêmula:
estou nascendo agora.
E a tua mão ascendia
por entre o vão das minhas pernas
e eu voltava a perguntar: onde nasceste?
E tu, quase sem voz, respondias:
estou nascendo em ti, meu amor.
Era assim que dizias.
Tu eras um poeta
Eu era a tua poesia.
Mia Couto
O chão é cama para o amor urgente
O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a úmida trama.
E para repousar do amor, vamos à cama.
Carlos Drummond de Andrade
segunda-feira, 3 de junho de 2019
No parque morno, um perfumista oculto
ordenha heliotrópios,
Deixa aberta a janela.
Minhas mãos sabem de cor o teu corpo,
e a alcova é morna.
Apaguemos a luz.
Não sentes na tua boca
um gosto de papoulas?
Passa o lenço de seda de tuas mãos
sobre minha fronte
e não me digas nada:
a febre está, baixinho, ao meu ouvido,
falando de ti.
Guimarães Rosa
Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objetos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Obje
to contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti
até que a dor alegre recomece.
Maria Gabriela Llansol
quarta-feira, 22 de maio de 2019
E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo.
Obriga-me.
Hilda Hilst
domingo, 5 de maio de 2019
Fica dentro de mim, como se fosse
eterno o movimento do teu corpo,
e na carne rasgada ainda pudesse
a noite escura iluminar-te o rosto.
No teu suor é que adivinho o rastro
das palavras de amor que não disseste,
e no teu dorso nu escrevo o verso
em pura solidão acontecido.
Transformo-me nas coisas que tocaste,
crescem-me seios com que te alimente
o coração demente e mal fingido;
depois serei a forma que deixaste
gravada a lume com sabor a cio
na carícia de um gesto fugidio.
António Franco Alexandre
in Duende
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