segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Enquanto

 


Enquanto
um calor mole nos tira a roupa
e mesmo nus sobre a cama
os corpos continuam a pedir água
em vez doutro corpo,
penso no tempo em que o suor
e a saliva e o odor e o esperma
faziam dessa agonia
a alegria
a que chamávamos amor

Eugénio de Andrade




sábado, 12 de fevereiro de 2022

Os silêncios da fala

 


São tantos
os silêncios da fala
De sede
De saliva
De suor
Silêncios de silex
no corpo do silêncio
Silêncios de vento
de mar
e de torpor
De amor
Depois, há as jarras
com rosas de silêncio
Os gemidos
nas camas
As ancas
O sabor
O silêncio que posto
em cima do silêncio
usurpa do silêncio o seu magro labor.

Rita Pais


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Depois de ser amada

 


Depois de ser amada no corpo,
a mulher é como a terra despenteada nas margens do rio,
onde os animais já mataram a sua sede e se recolhem.
 
Como o meu sexo que se remete ao sossego na sombra do meu corpo,
a lamber o perfume daquele rio interior em que bebeu.


João Morgado



quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

A flor da pele

 


Teu corpo está ao meu lado
fácil, doce, calado.
Tua cabeça no meu peito se arrepende
com os olhos fechados
e eu te olho e fumo
e acaricio os teus cabelos, enamorado.

Esta ternura mortal com que me calo
te abraça, embora eu tenha
imóveis os meus braços.
Miro meu corpo, o músculo
em que repousa o teu cansaço,
teu branco seio macio e apertado
e o leve e macio respirar do teu ventre
sem meus lábios.

Te digo à meia voz
coisas que invento a cada instante
e fico deveras triste e só
e te beijo como se fosse o seu retrato.
Tu, sem falar, me olhas
e te abraças a mim até chorar
Sem lágrimas, sem olhos, sem espanto.
E eu volto a fumar, enquanto as coisas
se põem a escutar o que falamos.

Jaimes Sabines


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Dicionário

 


 As palavras mais belas são as que nascem
do teu corpo: cabelos, lábios, ombros, seios,
até o ventre, e o que entre as coxas se esconde.
Escrevo-as devagar, como se lhes tocasse; e
cada uma delas é como um espelho, de onde
se libertam as tuas mãos, os dedos, um joelho,
olhos que beijo num murmúrio de segredos.

E pedes-me significados, símbolos, primeiros
e segundos sem idos. Não te sei dizer senão que
corpo é o teu corpo, centro um secreto umbigo,
pele a mais branca neve no horizonte desta
subida leve. Se me estendes os braços, entro
num abrigo de floresta: se me abres os ramos,
é na mais doce gruta que entramos.

Precipitam-se sinônimos, adjetivos sem
objetivo, pronomes enfáticos e possessivos,
sílabas perdidas na falésia do desejo. Mas
fecho o livro. Estou farto de palavras, é a ti
que eu quero. E faço-as voltar até de onde
nasceram: cabelos, lábios, ombros, seios, até
o ventre, e o que entre as coxas se esconde.

 Nuno Júdice



terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Neste quarto pequeno

 


Neste quarto pequeno para um amor sem fim
É que dispo o teu corpo
Para o vestir de mim.

É que rasgo o olhar no bico dos teus seios
É que dispo meu corpo
De dores e receios.

Neste quarto pequeno para um amor louco
É que dispo teu corpo
Pouquinho a pouco.

É que encho teu ventre de amor em gume
É que dispo meu corpo
Chispando teu lume.

Neste quarto pequeno para um amor profundo
É que nos despimos às cegas
Para não ver o mundo.

É que de mãos trêmulas e rouca voz
Nos despimos dos outros
E nos vestimos de nós.

João Morgado

 

 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Madrigal

 


 
teus olhos atentos me abrem a espera
quando me molham e despertam
o desejo sôfrego para que teus dedos dedilhem-me na busca de minha
rosa

Lucia de Moura Chamma

 

 

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Nua

 

 

Dispo-te, na lentidão apressada do espantar dos pássaros com os olhos presos, às asas da tua nudez. 

Paro no cume dos teus lábios e desço pelo teu corpo, pela tua pele. 

Poiso na tua mão a minha, ancorada, poiso na tua mão o meu amor.

Behind Blue Eyes

 




sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Rosa vermelha

 

 

Que eu, tal qual seiva de tua vida,
Invada teu pulsar atônito,
Teu florescer sublime e harmônico
E teu segredo sem guarida.

E teu segredo sem guarida
Percorra por tua viva pétala
Sentindo em meus lábios tua tez
E a timidez que o arrebol sela.

Que eu, incorporando tua centelha,
Escorra em ti feito ígneo orvalho.

Serei eu, então, teu poeta corsário;
Minha serás rosa vermelha.

Anderson Christofoletti

 

 



quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Impetuoso

 

Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.

Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.
 

Eugénio de Andrade 



quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

O mesmo tango

 


 

Os nossos corpos
têm a mesma batida,
o mesmo ritmo,
o mesmo tango por dentro.

Manuel Alegre




terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Condenado

 

 

Amarrotamos o pano-cru
que reveste o nosso leito
e deixo que o meu peito nu
vista a nudez do teu peito.
E fica a minha pele
colada na tua pele,
em bagas de lume, a transpirar,
até sentir, sem queixume, o teu corpo
apaixonar-se pelo meu corpo,
devagar, bem devagar…
E sinto o meu corpo tremer
ao sentir-te estremecer por dentro
e mil aves abrem asas ao vento
no sereno reflexo de um amanhecer.
E a tua pele…
E a minha pele…
A nossa pele…
Embalo em ti levado pelas marés
descobrindo quem és por dentro
inebriado num arrepio lento
que me percorre de lés a lés.
Queria deter este instante,
deixar cada segundo em suspenso
como o mundo que lá fora nos rodeia,
e ficar exilado em ti, condenado,
despudoradamente nu e apaixonado,
tendo o teu corpo por cadeia.

João Morgado




segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Na tua boca

 

 

danço nos teus lábios
em movimentos suaves
que me relaxam

danço na tua língua
em movimentos ousados
que me excitam
 

Helena Fonseca

 

 

 

 

domingo, 30 de janeiro de 2022

Da pequena morte

 

 

 Alimento a tua pele silenciosa
enquanto renovas a paz do meu sangue
a febre o sismo a transparente crueldade
onde naufragamos onde agora
o pão e o sol e o canto inventamos
A noite convoca o arco distendido
a ponte reconstruída
dos corpos amantes
Alimento com minhas armas vagarosas
a luz que nos une até aos ossos até
ao núcleo em que terra e fogo desfazem
no corpo a pequena imitação da morte

Casimiro de Brito

 

 

sábado, 29 de janeiro de 2022

Bastava-nos amar

 


Bastava-nos amar. E não bastava
o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?

O vento como um barco: a navegar.
Pelo mar. Por um rio ou uma veia.

Bastava-nos ficar. E não bastava
o mar a querer doer em cada ideia.
Já não bastava olhar. Urgente: amar.
E ficar. E fazermos uma teia.

Respirar. Respirar. Até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.

E bastava. Bastava respirar
a tua pele molhada de sereia.
Bastava, sim, encher o peito de ar.
Fazer amor contigo sobre a areia.
 

Joaquim Pessoa

 

 

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

No meio dia te penso

 


No meio-dia te penso
Íntima te pretendo.
Incendiada de mim
Contigo morrendo
Te sei lustro marfim e sopro.
E te aspiro, te cubro de sussurros
Me colo extensa sobre tua cabeça
Morte, te tomo.
E num segundo
Ouvindo novamente os sons da vida
Nomes, latidos, passos
Morte, te esqueço.
E intensa me retorno sob o sol.
 

Hilda Hilst 

 

 

 

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Porque não vens agora

 


Porque não vens agora, que te quero
E adias esta urgência?
Prometes-me o futuro e eu desespero
O futuro é o disfarce da impotência.
Hoje, aqui, já, neste momento,
Ou nunca mais. 

A sombra do alento é o desalento
O desejo o limite dos mortais.

Miguel Torga 

 

 

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Arisca

 

 

feroz selvagem arisca
como toda fera
às vezes até cruel
busca chegada de uma primavera
em minha vida
minha maldita querida
meu mel

Bruna Lombardi

 

 

domingo, 23 de janeiro de 2022

Não conhece a arte de navegar

 

Não conhece a arte de navegar
quem nunca navegou no ventre
de uma mulher, remou nela,
naufragou
e sobreviveu numa das suas praias.

Cristina Peri Rossi

 

 

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Mil e uma noites

 


Mil abraços
Mil fracassos
Meu delírio
Teus pedaços
Teu calor
Seja feito teu desejo


Mil e uma noites.
Faz uma outra vez Como se ainda fosse
Que prazer Que saudade Que maldade
Que fartura Que loucura Que cruel tortura Nos carinhos teus
Minha santa criatura

Diz que jura 

 

Chico Buarque

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