terça-feira, 30 de novembro de 2010

Bem vindo



Que me desarrume
faça bagunça
tripudie
se aproprie
se chegue
achegue
que fique
para todo sempre
comigo
o amor.

Carmim Rubra


domingo, 28 de novembro de 2010

Tem muita coisa em mim que tem saudade



Tem muita coisa em mim
Que tem saudade

Meus pés, por exemplo,
Gostavam de brincar
Dentro da banheira com os teus

Meus olhos, sempre atentos,
Observavam os teus
Nos movimentos do amor

Tuas mãos, tão pequenas,
Tremiam e suavam
Na curva de minha cintura

São pelos pequenos momentos
Que a gente quase morre
Que intensamente vive
Que longamente espera

Cáh Morandi



sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Poema aos amantes


Defendo os amantes perseguidos,
os amantes de encontros clandestinos,
os amantes de tanto desatino,
os amantes difíceis,
profanos.

Defendo os amantes que se escondem
e desbordam em rápidas carícias:
os furtivos, urgentes,
os amantes arriscados,
possessos e valentes.

Defendo os amantes verdadeiros,
os que assumem o risco da noite,
os desnudos amantes perseguidos,
os amantes de parques apagados,
os amantes camuflados,
os defendo, os cuido, os invejo.

Augusto Blanca


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Climaticamente


Na minha cabeça pode até existir
um inverno rigoroso, moral e racional.
Mas no meu corpo há um verão
abrasador, de um sol insano, emotivo.
Mas meu perigo é quando
a primavera em mim teima de se encontrar
com o outono.

Carmim Rubra



segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Essa presença


O sono não vem,
Você é certeza que chega;
Aloja-se em cada canto
Do meu quarto e do
Meu pensamento;
Seu perfume me cheira,
Flecha certeira,
Nessa presença de você.
Choro de emoção
Nesse desfile de
Saudades e lembranças que
Vai além da minha vontade.
O sonho me sonhou,
Durmo com você,
Coberta de amor.

Marisa de Medeiros


sábado, 20 de novembro de 2010

Eis-me aqui



... no lugar
onde repouso meus sentimentos,
descanso meus abraços,
e adormeço meus beijos...
Aqui, onde teu rosto cola com o meu,
nossos peitos conversam
sob as batidas de nossos corações,
e nossos sentimentos transcendem o chão.

Gilson Froelich


quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Absinto



Tenho sede
bebo tua ausência
sorvo este líquido
de gosto acentuado
mergulho neste torpor
inebriados pensamentos
eu e a fada verde
para matar esta sede
que agora sinto
simplesmente
absinto.

Géssica Hellmann


terça-feira, 16 de novembro de 2010

Segredo



Nem o tempo tem tempo
para sondar as trevas

deste rio correndo
entre a pele e a pele

Nem o tempo tem tempo
nem as trevas dão tréguas

Não descubro o segredo
que o teu corpo segrega

David Mourão Ferreira
No Veio do Cristal

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Três fósforos acesos



Três fósforos acesos
um a um durante a noite.
O primeiro para ver teu rosto,
O segundo para ver teus olhos e
O último para ver tua boca.
E a escuridão inteirinha para lembrar tudo isso
Estreitando-te em meus braços.

Jacques Prévert
Tradução Amélia Pais

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Inteira



Pelo caminho das sedas
Atrás das cortinas de renda
Absolvo todos os teus pecados
E te confesso minhas meias verdades

Wania


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Contigo vou



A luz trocada em olhos que ficaram
subitamente cegos, e depois as palavras,
cautelosas, dizendo a seda
dos corpos sós. O desejo
foi polindo em silêncio
um fruto em busca da sua maturação.
A teu lado me deito e bebo a água
que tu me abres
e onde me perco e ardo e tudo.
Aqui tens o meu corpo cheio de mundo.
Amar-te é viagem que não se acaba
e contigo vou, para o alto
e para o fundo.

Casimiro de Brito


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Cada vez mais de perto



Olhas-me,
cada vez mais de perto,
as bocas encontram-se,
mordendo-se com os lábios,
quase não apoiando a língua nos dentes,
como se tivéssemos
a boca cheia de flores
ou de peixes.
E há apenas uma saliva e apenas um sabor,
e eu sinto-te tremer em mim
como a lua na água.

Julio Cortazar


terça-feira, 2 de novembro de 2010

Conversa de amantes



... são um homem e uma mulher.
mas, no silêncio, só há dedos
e línguas.
O toque é a linguagem,
a magia de ser vento numa carícia.

E assim conversam os amantes...

Alice Macedo Campos


segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Feito flor



Ele diz que sou flor
e de repente me toca
me abre e respira
me chama pra vida
pétala por pétala
no chão despida

Cáh Morandi


domingo, 31 de outubro de 2010

Adeus



...e foi por isso
que nessas noites morri muitas vezes
enquanto
as secretas palavras de adeus alastravam
pela foz do teu desejo

e a minha pele se despia
vagarosamente da tua

Alice Vieira


sábado, 30 de outubro de 2010

Murmúrio



Murmuras uma canção aos meus ouvidos
e os meus pensamentos estremecem (...)

murmuras a canção
e sei:
é inescapável a viagem.

as águas turbulentas cristalinamente
tentadoras,
a me chamarem:
vem.

Silvia Chueire


sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Post Scriptum


Afasto de ti com
raiva surda

o corpo
as mãos
o pensamento...

E digo este meu vício
dos teus olhos
de um verde tão lento
muito lento

Se penso que te deixo
já te quero

Se penso que recuso
já te anseio

Se penso que te odeio
já te espero

e torno a oferecer-te
o que receio

Se penso que me calo
já te grito

Se penso que me escondo
já me ofereço

Se penso que não sinto
é porque minto

Se penso que me olhas
já estremeço

Maria Teresa Horta


quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Desejo atendido



Freqüentemente me esqueço
e quero o teu corpo
para amá-lo, abrigar-me nele,
por ele me deixar amar
atravessada de prazer...

o desejo atendido,
a atender-te...

Silvia Chueire


quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Ainda que mal...



Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano:
amor.

Carlos Drummond de Andrade


terça-feira, 26 de outubro de 2010

Tuas mãos



Nas tuas mãos
ardia
barco de espuma
rede

das tuas mãos escorria
língua de fogo
sede

nas tuas mãos
sentia
dobra do vento
febre

nas tuas mãos
tremia
nome da vida
tempo

Paula Tavares


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