segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Beijo a beijo

 

E de novo armadilha dos abraços
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés descalços
a pele alucinada das carícias.
As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.
Alcandorada no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e de silêncios
a ecoar no som dos precipícios.
E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos bichos.

Rosa Lobato de Faria

 

 

Imprevisto

 

Que surpresa
a dos dedos
quando percorrem o corpo

ou espalham os cabelos
pelas costas
despidas

Em breve será o ventre
e em seguida

as pernas lentas
mansamente erguidas

Maria Teresa Horta

 

 

domingo, 13 de setembro de 2020

Uma puta vontade

 

uma puta vontade
uma vontade puta
& a solidão
minha melhor companhia

Alice Barreira

 

 


quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Me olhas de perto

 

 

Me olhas, de perto tu me olhas,
cada vez mais de perto e,
então, brincamos de ciclope,
olhamo-nos cada vez mais de perto
e nossos olhos se tornam maiores,
se aproximam entre si,
sobrepõem-se e
os ciclopes se olham,
respirando confundidos,
as bocas encontram-se e lutam
debilmente, mordendo-se
com os lábios,
apoiando ligeiramente a língua nos dentes,
brincando nas suas cavernas
onde um ar pesado vai e vem
com um perfume antigo e um grande silêncio.
Então, as minhas mãos procuram afogar-se
nos teus cabelos,
acariciar lentamente a profundidade
do teu cabelo
enquanto nos beijamos
como se tivéssemos a boca cheia
de flores ou de peixes,
de movimentos vivos,
de fragrância obscura.
E, se nos mordemos,
a dor é doce;
e, se nos afogamos num breve
e terrível absorver simultâneo de fôlego,
essa instantânea morte
é bela.
E já existe uma só saliva
e um só sabor de fruta madura,
e eu te sinto tremular contra mim,
como uma lua na água.

Julio Cortazar

 


Toco a tua boca

 

 

 

Toco a tua boca
com um dedo toco o contorno da tua boca,
vou desenhando essa boca como se estivesse
saindo da minha mão,
como se pela primeira vez
a tua boca se entreabrisse e basta-me
fechar os olhos para desfazer
e tudo recomeçar.
Faço nascer, de cada vez,
a boca que desejo,
a boca que a minha mão escolheu
e te desenha no rosto,
uma boca eleita entre todas,
com soberana liberdade
eleita por mim para desenhá-la com minha mão
em teu rosto
e que por um acaso, que não procuro compreender,
coincide exatamente
com a tua boca que sorri
debaixo daquela
que a minha mão te desenha

Julio Cortazar

 

 

terça-feira, 28 de julho de 2020

As tuas mãos nas minhas



As tuas mãos nas minhas.
O incrível miraculoso de eu dizer o teu rosto.
O ardor de um meu dedo na tua pele. Na tua boca.
O terrível dos meus dedos nos teus cabelos.
O prazer horrível até à morte da minha entrada no teu corpo.

Vergílio Ferreira






domingo, 5 de julho de 2020

Encosto-me ao teu calor como gato à luz do sol



Encosto-me ao teu calor como gato à luz do sol.
Lambo-te devagar o dorso e cheiro-te os cantos do corpo, em busca dos odores que me confirmam a tua humanidade.
Gosto de esconder os lábios no côncavo do teu braço
e tatear com a língua os teus lábios, roubando-te o sentido às palavras
e recolhendo, um a um, os sons com que soçobras nos meus braços.
Afago o rosto na penugem que envolve a pele da tua mão,
as veias em sulcos, os dedos cegos pelo meu corpo
a encherem-no de arrepios frescos como brisas de verão.

Cerro os olhos nos teus
e afasto-me rapidamente, de corpo agitado
e orelhas em riste,
sempre que alguma mosca entra no quarto.

A Empregada de Mesa
in "Fanny Ardant vem Jantar" 



 

quarta-feira, 27 de maio de 2020

"89"

 

Acordo. Dormes ainda.
Que fazer se me apetece?
Pego na tua mão
e pouso-a onde estou vivo.
Respiras. Andantino*.
As costas para mim. Não resisto.
Os dedos, leves, ensalivados,
vão à procura do grão, do seu
pólen. Vão e vêm, vou e venho.
Beijo-te no ombro. Sorris.
Dormes ainda? Subitamente
abres os olhos e abres a boca
e debruças-te sobre mim.
O dia principia.

Casimiro de Brito
in Amar a Vida Inteira


 * advérbio
    1.
    em notação musical, com execução em andamento um pouco mais ligeiro que o andante.
 

   2.
    substantivo masculino
    esse andamento.



segunda-feira, 25 de maio de 2020

Vem. Vamos arder nos braços um do outro

 

Uma fogueira é sempre uma celebração entre o ar e outra matéria.
Vem. Vamos arder nos braços um do outro. Depois, as cinzas
hão-de espalhar-se pela memória desta noite.

Joaquim Pessoa




quinta-feira, 21 de maio de 2020

Sabes, por vezees queria beijar-te

 

Sabes por vezes queria beijar-te. Sei que consentirias.
Mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter-nos-íamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos.
Foi melhor sabermos quanto nos queríamos, sem ousarmos sequer tocar nossos corpos.
Hoje tenho pena. Parto com essa ferida.
Tenho pena de não ter percorrido teu corpo como percorro os mapas,
com os dedos teria viajado em ti do pescoço às mãos,
da boca ao sexo.
Tenho pena de nunca ter murmurado teu nome no escuro.
Acordado perto de ti.
As noites teriam sido de ouro e as mãos teriam guardado o sabor de teu corpo.

Al Berto 



 

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Os nossos desejos



Os nossos desejos
são como crianças pequenas:
quanto mais lhes cedemos,
mais exigentes se tornam.

Provérbio Chinês

O que chega de repente

 

O que chega de repente, despudoradamente sorrateiro.
De mansinho ou a galope, me interessa.
O que não pede licença, invade de impulso.
Com boas ou más intenções, me desperta.
O que acha que manda, cheio de ordens.
Quase obedeço – e me instiga.
O que não tem pudores, escancaradamente prazer.
Desnuda com os olhos, veste com a boca –
e me enlouquece.
O que traz desassossego, puro atordôo.
Seduz meu espírito, me entrego.
O que me cala a boca, altamente impassível.
Explode as certezas, espatifa argumentos –
me rendo.
O que puxa pra perto, com zelo suave.
Me toca, me tem.
O que pega na mão, todo territorial,
ah sim.
Esse, me arrebata.
 
Paula Pfeifer



 

A voz dele me toca

 

Porque a voz dele me toca feito as mãos
e as mãos dele me envolvem feito fábulas.
E as duas, quando passeiam em mim
desabotoam minhas mais
mal-comportadas palavras.

Marla de Queiroz



 

E por ti ardo




Adiei-me por ti. E por ti ardo
como o velho anjo que pegou o fogo
aos quatro pontos cardeais.

Joaquim Pessoa




 

O meu mal

 

O meu mal era a grande fraqueza por ele, que eu sentia.
Eu gostava de, comigo, chamar aquilo de amor.
Mas só porque achava bonito e porque, no amor, tudo se perdoa.

Mas não era amor, era pior, eu acho que era mesmo paixão.
Nem era só um cio violento, mas passageiro,
que depois de satisfeito se desvanece.
Não era cio; e era muito mais que amor.
 
Rachel de Queiroz



 

Anseio-te pelas palavras roucas


 

Anseio-te pelas palavras roucas e cortadas, pois deixei
por ti as moradas sem vida e sem sonho. Abro-me
como o linho dos lençóis. Amarrotas-me como as
pétalas de uma flor rebelde

Lília Tavares



 

Como saberia amar-te

 

Como saberia amar-te, mulher, como saberia
amar-te, amar-te como nunca soube ninguém!
Morrer e todavia
amar-te mais.
E todavia
amar-te mais
e mais.
 
Pablo Neruda



 

O teu cheiro em mim


 
O teu cheiro em mim
Por muitos dias,
Tantos dias
eu amei-me
a mim mesma.

Eeva Kilpi




 

Fala baixo

 

Fala baixo, juntinho ao meu ouvido,
Que essa fala de amor seja um gemido,
Um murmúrio, um soluço, um ai desfeito...

Ah! deixa à noite o seu encanto triste!
E a mim... o teu amor que mal existe,
Chuva a cair na noite do meu peito!"

Florbela Espanca 










Ternura amarrotada



Desvio dos teus ombros o lençol que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol, quando depois do Sol não vem mais nada...
Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio, como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...
Mas ninguém sonha a pressa
com que nós a despimos assim que estamos sós.

David Mourão Ferreira 



 



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