sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Apelo



Atravessa os campos da noite
e vem.

A minha pele
ainda cálida de sol
te será margem.

Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.

Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.

Atravessa os campos da noite
e vem.

Luísa Dacosta


segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Toma-me



Toma-me.
A tua boca de linho sobre a minha boca austera.
Toma-me agora, antes
Antes que a carnadura se esfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.
Tempo do corpo este tempo. Da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.
Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa
De púrpura. De prata. De delicadeza.

Hilda Hilst

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Perfeição



Procuro, onde repassar o corpo.
Deixar todas as marcas do silêncio e,
Sorver toda a alegria da palavra incendiada

Penetrar, onde o ardor é mais rumoroso,
Sendo, a corola do ventre, a salvação dos lábios.

E o caos da carne, tão perto está, da perfeição plena,
Quando, pelos espelhos, chega o leite derramado dos seios.

Nada mais sublime e próximo dos deuses, que,
Dois corpos juntos, olhando-se no mais íntimo,
De toda a luz derramada no êxtase.

Joaquim Monteiro


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Elogio do pecado




Ela é uma mulher que goza
celestial sublime
isso a torna perigosa
e você não pode nada contra o crime
dela ser uma mulher que goza

você pode persegui-la, ameaçá-la
tachá-la, matá-la se quiser
retalhar seu corpo, deixá-lo exposto
pra servir de exemplo.

É inútil. Ela agora pode resistir
ao mais feroz dos tempos
à ira, ao pior julgamento
repara, ela renasce e brota
nova rosa

Atravessou a história
foi queimada viva, acusada
desceu ao fundo dos infernos
e já não teme nada
retorna inteira, maior, mais larga
absolutamente poderosa.

Bruna Lombardi


terça-feira, 20 de novembro de 2012

Bainha aberta




Crava em meu corpo essa espada crua.
Quero o ardor e o êxtase da luta
em que me rendo voluntária e nua.
Meu temor é a paz pós-união:
desenlace derrota solidão.

Astrid Cabral  


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Invenção




Depois de te conhecer
inventei uma nova natureza
para o silêncio das minhas águas

Natureza mar
que prolongas as margens do olhar
e banha o areal do meu corpo

Natureza rio
que faz o seu leito entre os teus seios
e se estende no estuário da vida

Natureza barco
que navega pelas noites de luar
sulcando a magia do invisível

Inventada a natureza em que me apoio
abraço-a com mãos de medo

António Sem


domingo, 18 de novembro de 2012




... Canto porque o amor apetece.
Porque o feno amadurece
nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
por vê-los nus e suados.

Eugénio de Andrade


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Poeminha viscoso




Em meio a teu visgo
me sinto emplastrada
feliz e cansada

Eliana Mora

terça-feira, 13 de novembro de 2012




De olhos fechados, quando, alta noite, no outono,
Respiro o cheiro bom dos teus seios fogosos,
Vejo entreabrir-se além cenários deleitosos
Cintilando ao ardor de um sol morno de sono.

Baudelaire

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Frenesi



Noite de Luar,
eu, nua e crua,
e tu a me devorar.

Paty Padilha


domingo, 11 de novembro de 2012




Eis um grande enigma do qual nunca terei a solução: por que desejo esse?
Por que o desejo por tanto tempo, languidamente?
É ele inteiro que desejo (uma silhueta, uma forma, uma aparência)?
Ou é apenas uma parte desse corpo? E nesse caso, o que, nesse corpo amado,
tem tendência de fetiche em mim?
Que porção, talvez incrivelmente pequena, que acidente?
O corte de uma unha, um dente um pouquinho quebrado obliquamente, uma mecha, uma maneira de fumar afastando os dedos para falar?
De todos esses relevos do corpo tenho vontade de dizer que são adoráveis.
Adorável quer dizer: este é meu desejo, tanto que único:
“É isso! É exatamente isso (que amo)!”

Roland Barthes


terça-feira, 6 de novembro de 2012




Não se pode receber prazer sem dar prazer;
que cada gesto, cada carícia, cada aspecto,
cada parte do corpo esconde em si um segredo,
cuja descoberta causará delícia a quem a fizer.
Dela aprendia Sidarta que os amantes não devem separar-se
após a festa do amor, sem que um parceiro sinta admiração do outro;
sem que ambos sejam vencedores tanto como vencidos,
de maneira que em nenhum dos dois possa surgir a sensação de enfado
ou de vazio e ainda menos a impressão desagradável
de terem-se maltratado mutuamente.

Hermann Hesse


terça-feira, 23 de outubro de 2012

Rubra



Há uma rosa rubra na noite
uma rosa de silêncios e segredos

estende-se na madrugada

ninguém sabe das pétalas irisadas
pelo orvalho.

Há uma rubra rosa na noite
é tua

Sílvia Chueire


terça-feira, 16 de outubro de 2012

Poemasoch




Mesmo que me negues
a umedecida boca
ainda sim te amo

Mesmo que me traias
na espiral do fumo
ainda sim te amo

Mesmo que me subjugues
às pálpebras da noite
ainda sim te amo

Mesmo que me açoites
com teu carinho de relva
ainda sim te amo

Mesmo que me silencies
com tua saliva rubra
ainda sim te amo

Mesmo que me afastes
e mansamente me rejeites
ainda sim te amo

Amo-te assim e ainda
desconcertado fico e te amo
Entre a palavra e o gesto
 (no previsível canto da solidão)
resta o ato em que me completo:
porto oportuno do gozo
ferrão de vespa na pele da paixão

Anibal Beça


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Eis como eu gostaria de amar




Há certas leituras que nos fazem tomar consciência de que nada vivemos, nada sentimos, nenhuma experiência temos.

Só agora me dou conta de como as minhas experiências eram pura e simplesmente mecânicas, anatômicas.

Os sexos tocavam-se, confundiam-se, sem provocar qualquer faísca, qualquer sensação, qualquer perturbação.

Como vir a conhecer tudo isto? Como poderei eu começar a sentir - a sentir mesmo?

Gostava de ficar tão apaixonada que só de ver ao longe o ser amado me sentisse abalada, trespassada, sem forças, ficasse a tremer e a derreter-me toda entre as pernas.

Eis como eu gostaria de amar, tanto... que só de pensar no objeto amado...
atingisse o orgasmo.

Anais Nin


domingo, 14 de outubro de 2012

Ciclos eternos




Entre encontros
desencontros,
nossa poesia se deita na cama
abusando da chama
que nos consome
ao chancelar na pele
uma cicatriz que é
apenas nossa.

Entre silêncios
afastamentos,
nossa poesia se estampa
explícita na cama
fazendo do sagrado e do profano
o mistério
que não se desvela
mas que se escancara
no desejo que nos invade.

Entre dúvidas
culpas,
nossa poesia incendeia
a cama de um quarto qualquer
prolongando em nossas almas
um clamor estranho e distante
que, por entre pele com pele,
se reconhece
no pulsar de cada poro,
de cada célula
apenas nossa,
destinadas a um eterno
re-encontro.

Ana Paula Perissé


sábado, 13 de outubro de 2012

Canção




O peso do mundo
         é o amor.
Sob o fardo
       da solidão,
sob o fardo
      da insatisfação

o peso
o peso que carregamos
        é o amor.

Quem poderia negá-lo?
          Em sonhos
nos toca
      o corpo,
em pensamentos
        constrói
um milagre,
         na imaginação
aflige-se
         até tornar-se
humano -

sai para fora do coração
         ardendo de pureza -

pois o fardo da vida
          é o amor,

mas nós carregamos o peso
           cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
          finalmente
temos que descansar nos braços
           do amor.

Nenhum descanso
        sem amor,
nenhum sono
        sem sonhos
de amor -
           quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
           ou por máquinas,
o último desejo
          é o amor
- não pode ser amargo
         não pode ser negado
não pode ser contigo
           quando negado:

o peso é demasiado
          - deve dar-se
sem nada de volta
         assim como o pensamento
é dado
         na solidão
em toda a excelência
         do seu excesso.

Os corpos quentes
          brilham juntos
na escuridão,
          a mão se move
para o centro
        da carne,
a pele treme
          na felicidade
e a alma sobe
         feliz até o olho -

sim, sim,
           é isso que
eu queria,
          eu sempre quis,
eu sempre quis
         voltar
ao corpo
         em que nasci.

Allen Ginsberg


sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Arte-final




Não basta um grande amor
            para fazer poemas.
E o amor dos artistas, não se enganem,
não é mais belo
            que o amor da gente.

O grande amante é aquele que silente
se aplica a escrever com o corpo
o que seu corpo deseja e sente.

Uma coisa é a letra,
e outra o ato,

            – quem toma uma por outra
               confunde e mente.

Affonso Romano de Sant'Anna


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Do teu cheiro




O gosto da tua pele
sal impregnado em meus lábios
que me mata de sede
à beira da fonte dos teus prazeres.

O teu gosto na minha boca
mel que sacia meus desejos
na hora derradeira
do medo de te perder
em meio aos lençóis.

O teu cheiro impregnado
no meu corpo
perfume raro que nem a chuva
leva de mim...

Ademir Antonio Bacca


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Poema da amante




Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos,
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.
Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita dos tempos
Até a região onde os silêncios moram.
Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.
Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
E em tudo que ainda estás ausente.
Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a idéia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.
Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.

Adalgisa Nery


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